Dos desajustes – da maternidade para a cama

Contrariamente a outros sites de mães, que põem em evidência o que de melhor acontece na vida familiar num registo auto-biográfico, não escapo à natureza do Mãegazine: o individual é apenas o ponto de partida para uma reflexão mais alargada, muitas vezes sobre o que de pior acontece (oh well 😏).
Vamos falar de desajustes? Desajustes na forma como nos vemos como mães? Desajustes na forma como vivemos a sexualidade?

Ora noutro dia tive a feliz oportunidade de ver um vídeo com a minha mentora Laura Markham, doutorada em parenting.

No vídeo, ela dizia que quando o bebé nasce, ficamos completamente apaixonados e prometemos fazer tudo por eles, coração a transbordar. Projectamos o futuro, nós ao seu lado a acompanhar a sua exploração da vida e do mundo.

E não podemos acreditar, nem nos reconhecemos, quando aquelas pequenas criaturas adoráveis nos levam a explorar os nossos próprios píncaros de raiva, frustração, tão longe do ideal de amor incondicional que descobrimos com eles e sabemos existir, mas que se escondeu sabe-se lá onde.

Quem é este monstro (válido para pais e filhos)?! De onde vem toda esta agressividade, desconhecida até aqui, eu que me julgava equilibrada e ponderada?!

Este monstro são as emoções não reguladas e filtradas pelo córtex pré-frontal, vindas direitinhas das duas amígdalas do cérebro. São as hormonas do stress, que existe para nos proteger, mas versão roda livre, consequentemente versão destrutiva.

Os bebés e os choros descontrolados, as crianças pequenas e as suas birras, as de idade escolar, que se recusam a ouvir-nos, os pré adolescentes e as suas reivindicações, os adolescentes e todo o seu comportamento a testar limites – francamente não há nenhuma fase em que não nos levem aos píncaros, carregando em TODOS os botões do nosso ser, aqueles que desencadeiam reacções inflamadas (para ser gentil) em nós.

É esta realidade menos gloriosa, mas igualmente presente, que me interessa, conversa honesta sobre como gerir a parte sombria de nós mesmos (artigos sobre isso aqui e aqui).

Acontece que esta realidade está justamente ausente na imagem que damos, como sociedade, da maternidade.

Dos anúncios aos filmes aos blogues (que podiam ser fontes de autenticidade, mas tendem para a auto-glorificação, deliberada ou não), a imagem que é dada é adocicada.

Como resultado, a percepção que temos de nós como mães é de falhanço e frustração, pois estamos longe (falo por mim, pelo menos) destas referências e modelos de pura felicidade e amor transbordante.

Isto é assim com a maternidade e será com outras coisas?

Chamaram-me a atenção para um artigo sobre a sexualidade, um artigo que foi publicado no jornal Le Monde. A autora fala precisamente do desajuste entre a imagem que temos de uma vida sexual feliz, em boa medida veiculada pelos media, filmes, etc, (não sendo profissionais nesta área, médicos, terapeutas, etc, como podemos ter referências de comportamentos íntimos?) e a realidade, com líbidos pouco animadas ou ideais de performance no extremo oposto do que conhecemos?

A autora diz que um terço das francesas simula ter orgasmos, de forma a não desapontar o parceiro. E isto num país ocidental, que conheceu os Maios de 68 e afins. Nem imagino noutras culturas, onde a mulher tem um papel acessório e subalterno…

Retomo as perguntas que já fiz, e que se aplicam igualmente à nossa sexualidade:

Onde está a minha liberdade? Quem define o meu sucesso? Com que bitolas vivo a minha vida? 

Quando nos libertamos das imagens com que somos bombardeados? Quando nos viramos para a nossa realidade, para o concreto, para o que temos, para o que somos, para aqueles com quem partilhamos a vida, sem expectativas ditadas por outrem?

Isso sim, seria uma revolução. Mas não é glamourosa nem vende, por isso é continuar a sonhar (e a escrever)

ps – há um artigo sobre sexo de que gosto particularmente. É este, em inglês

 

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