Na nuvem do berço ao túmulo*

*artigo da autoria de Mariana Sá e originalmente publicado há dias no site brasileiro MILC. É tão pertinente que decidi publicá-lo por inteiro aqui também:

Recentemente, duas notícias me deixaram intrigada: será que não há limites para o que pretendem podem com nossas crianças a pretexto de estarem oferecendo facilidades? A primeira notícia diz respeito ao pré-lançamento da Hello Barbie e a segunda é o lançamento de um You Tube para crianças.

O que as duas novidades têm em comum?

O novo aplicativo do You Tube, de fato, oferece uma grande vantagem para quem deseja proteger as crianças conteúdos adultos. Se o You Tube Kids, não oferecer propaganda, teremos realmente uma boa alternativa de entretenimento para crianças maiores. Diferente da Hello Barbie, o You Tube Kids, à primeira vista, parece só apresentar benefícios.

Vou me dar ao direito de compartilhar com vocês o que me inquietou em relação aos dois “brinquedos”: ambos coletam informações sobre nossos filhos e depois enviam e armazenam nesta tal de nuvem para “aperfeiçoar a experiência da criança”. Com uma boneca, uma smart tv, um tablet ou um aparelho de celular, conectados no wifi, sendo usado apenas por uma criança, permitiremos que seja desenhado um perfil dos nossos filhos desde a mais tenra infância.

Já estamos permitindo: quem acessa emails, faz pesquisas na internet ou acessa as redes sociais aceita que os programas e aplicativos acessem informações privadas e envie de volta para eles poderem “melhorar a nossa experiência” e aperfeiçoar a programação. Assim, quando você pesquisa uma passagem aérea, horas ou dias depois um outro site de viagem te envia ofertas para hospedagem na cidade de destino.

E é isso que temo acontecer com nossos filhos: assim que saiam do ambiente protegido (se é que será protegido mesmo) serão bombardeados de ofertas com base no seu padrão de navegação no You Tube ou no seu padrão de interação com a Hello Barbie. Estou apreensiva com este bombardeio agora e daqui a uns anos, dentro do You Tube ou em outras aplicações Google ou mesmo em outras redes sociais, a depender de negociações entre os “donos” das informações sobre nossos filhos e os interessados nelas.

Tudo que a criança fizer conectada por um perfil fará parte da sua “ficha corrida”: é como se a Mesbla tivesse acesso a tudo que escrevi nos meus diários de papel e fizesse uma propaganda personalizada com meus desejos e angústias para oferecer uma camiseta. Só que com um grau de sofisticação muito maior.

Eu, pessoa analógica que sou, ainda me assusto com os back ups automáticos das minhas fotos e vídeos feitos no celular assim que chego num lugar com wifi, com o aparecimento de um óculos que pesquisei na barra lateral do meu facebook, ou com os anúncios certeiros do Google. Tudo isso aparece como uma mistura de conforto e invasão de privacidade: é bom ter as fotos salvas em caso perda ou roubo do aparelho… É bom receber ofertas de hotel quando o tempo para as pesquisas anda apertado… E a vontade de me deslogar é acompanhada por uma preguiça de nadar contra a maré.

Sou adulta, entendo um pouco de marketing e de pesquisa de mercado, compreendo como aquilo apareceu, mas será que crianças pequenas não ficarão fascinadas e, por conseguinte, mais  vulneráveis do são quando se depararem com estas “facilidades”? Será que – em alguns anos – quando se deparar com um produto anunciado por uma peça de propaganda lapidada a partir da sua interação afetiva com uma boneca na sua infância conseguirá não se afetar?

Imagine o que é uma criança receber daqui a trinta anos propagandas, informações e apelos com base no que consumia/desejava/admirava/interagia na infância. Imagine-se recebendo agora uma propaganda com base naquilo que você fazia durante suas tardes livres e nas conversas que você tinha com os seus amigos imaginários.

Se você chegou até aqui procurando respostas, sinto muito, mas tenho mais perguntas:

1. O que grandes empresas como Disney, Mattel, Hasbro, Apple, Google ou Facebook, entre outras, podem fazer com o volume de particularidades de cada ser humano coletados via interação com aparelhos, aplicativos e brinquedos, e agora do berço ao túmulo?

2. Afinal: qual o cuidado que devemos ter ao conectar uma criança a uma nuvem para usufruir destes benefícios?

3. Quantos pais e mães perceberão o perigo de mandar voluntariamente todas as particularidades para uma nuvem “governada” por uma corporação em troca de manter seu filho “incluído”, distraído e entretido?

Quem tiver dicas de segurança, de aplicativos éticos (que não fuce os gadgets), de procedimentos, de ferramentas anti-espionagem, de abordagens junto às crianças para torná-las autônomas nas redes, por favor compartilhem: podemos até evitar mandá-las para a nuvem agora, mas este dia pode chegar para elas como já chegou para nós.

Mariana Sá é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É autora do blog materno viciados em colo e é cofundadora do Milc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças. Membro da Rebrinc.

imagem de Angelo Barile

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