Auto-superação (e provas de aferição)

Não sei se é um exclusivo de mães de famílias numerosas (olá pessoal!), ou se vai de cada um, mas quando me pediram, numa festa dedicada ao Dia da Mãe, para definir a maternidade numa palavra, confesso que me veio à cabeça a palavra exaustão, mas achei que ficava um bocado foleiro naquele contexto

Entre Amor, Amoroso, Infinito e outras quantas dentro do mesmo estilo, soletrei ao mais crescido uma palavra para ele escrever, ocupada que estava entre o colo exigido pela criança de 16 kg e a de 27, qual delas puxa mais pela manga ou se pendura nas calças aos choradinhos. A palavra soletrada foi auto-superação.

brincadeira

Eu sei que é um bocado auto centrado, mas foi o mais honesto que pude pensar naquele instante. E fiquei com a impressão de que 1. ou as outras pessoas tapam o sol com a peneira para ficar bem na fotografia, ou 2. eu vivo mesmo numa realidade meio paralela (sendo que o meia nesta frase não serve para nada). É por ter 3 filhos?

Artigos dizem que mães de 3 são as mais stressadas de todas porque há sempre um que nos escapa e ainda não chegámos ao ponto do ou relaxo ou colapso, eles viram-se sozinhos que não chego para tantos. 3 putos (ou +) em idades e fases distintas exige um constante driblar de atenção e tentativa de ir ao encontro das necessidades de cada um. Se esse malabarismo já por si não é evidente, com doenças, viroses, más notas, más noites, excesso de trabalho ou escassez de descanso ainda menos! Abraço solidário a quem atravessa estas fases, daí o ter republicado no Facebook o artigo Amar a Imperfeição (vamos tatuar isto na testa mesmo?! 😉 )

A definição de superação no dicionário Priberam é

Agora aplique-se isto a si mesmo:

Auto-superação é uma pessoa exceder-se, ultrapassar-se, galgar e vencer as suas próprias dificuldades.

Pumba, nem mais.

Ser mãe é isto.
É ser capaz de melhorar cada dia, tentar acertar mais, tentar falhar menos, tentar amar melhor, tentar encontrar modos saudáveis e eficazes de contornar certas dificuldades para levar a bom porto o barco: 
que a prole cresça feliz e saudável e se tornem pessoas curiosas, apaixonadas, respeitosas, trabalhadoras, esforçadas, honestas, com valores.


E o que tem isto que ver com as provas de aferição e os testes e exames que se aproximam?

O que fazer quando se encontra uma razoável resistência e uma total inconsciência das consequências que a eventual negligência escolar poderá ter na vida futura de uma criança/adolescente (não compro guerras de ser pro ou anti escola, un-escola, world-escola, casa-escola ou escola-escola)?

Faltam cerca de 5/6 semanas para as provas de aferição e deparo-me com algumas dificuldades e frustrações mútuas, e por isso vamos tentar uma nova abordagem:

Técnicas de produtividade aplicadas ao estudo da prole. Como?

  1. Pensar nos objectivos concretos e realizáveis – correcção de erros ortográficos (leitura e escrita), melhoria da caligrafia (escrita), melhoria do cálculo e compreensão de problemas (exercícios de matemática), etc
  2. Organização da semana por objectivos – 2ª matemática, 3ª leitura, 4ª escrita, etc
  3. Toma lá uma agenda só tua (como aquelas fantásticas que a revista espanhola Telva oferece na edição de Dezembro)
  4. Responsabilização/ tomada de consciência – escreve na agenda o que é para fazer em que dia, TODAS as semanas até ao dia da prova
  5. Responsabilização/ prestação de contas (accountability) – cada dia consultas a agenda e depois marcas um ✔ ou um ❌ na tarefa designada
  6. Reforço positivo – queres receber a coisa X ou fazer a Y? Vamos cumprir com os objectivos e no dia Z consegues o que queres 🙂
  7. Balanço – isto é tudo muito bonito em teoria mas é importante fazer balanços semanais para ver se é preciso readaptar o plano à realidade da vida

Para ajudar neste ambicioso plano (se funcionar é do caraças, porque isto são ferramentas essenciais para toda a vida), só juro pelos temporizadores de cozinha, ajudam enormemente nas transições (quando tocar vais tomar duche/lavar os dentes/fazer os TPC/arrumar o quarto/deixar de jogar/etc).

Escrevo não de barriga cheia de sucessos mas cheia de dúvidas e na expectativa da 1ª vez. Mas como tenho uma fezada de que isto deve funcionar (não me dei ao trabalho de ler artigos de outrem), aqui publico esta ideia, pode ser que vos ajude igualmente. Se sim, ou se já experimentaram, por favor comentem e partilhem as vossas experiências 😀

A Mãegazine anda por aqui, pelo Facebook e pelo Pinterest para guardar coisas giras e vistosas 😉

Viver Devagar

Há uns dias vi uma foto publicada no Facebook por um amigo. Era uma belíssima foto de família, a preto e branco, com o pai deitado na terra, nas ervas, com dois filhos sentados em cima de si, um nos joelhos e outro no peito. Do lado esquerdo estava a mãe, igualmente sentada no chão, com um pequeno no meio das pernas cruzadas e um bebé ao colo.

A foto sugeria ser Verão, no campo, e o casal e quatro filhos estavam à sombra, relaxados, descontraídos.

Aquela fotografia em particular transmite uma tal sensação que as centenas de comentários, aos quais juntei o meu, iam no mesmo sentido – que maravilha!

platja en familia_julia sarda

Comentei alto, ai coitada desta mãe, 4 rapazes! e levei logo com um coitada porquê?!, como se eu estivesse a dar a entender que ter 4 filhos fosse uma tragédia. Coitada porque se eu frito com 3 imagina ela com 4.

E fiquei a pensar. Pensei como nos anos 50, ou 60, ter 4 filhos não é o mesmo que agora. O ritmo de vida era outro, mesmo na cidade. Sobretudo na cidade.

    Agora é a loucura de exigência de trabalho com X horas no mínimo e prazos para ontem; a loucura de horas no trânsito; do estacionamento ou falta dele; no crosse para ir buscar este e levar aquele para outro local; de notificações a cair no computador e telefone, responder aqui, comentar acolá.
    E a corrida para chegar a horas de manhã à escola e para ter tudo jantado idealmente antes das nove e meia, faz a digestão na cama, lá para as dez. E as respostas tortas de quem tem de gerir o stress, o seu e o dos outros, que são pequenos e não têm culpa nenhuma, ou até têm que estão a ficar uns mal criados e isso é que me faz trepar as paredes e passo o tempo a respirar fundo e a deitar as mãos à cara, a pensar na nódoa de educação que devo estar a dar, a culpa é minha só pode. E a culpa e o ressentimento e coitada daquela mãe com 4 filhos, se eu frito com 3 imagina ela com 4.

    ester aarts

    Vivemos demasiado depressa, com uma sensação de urgência nos consome por dentro – falo por mim. O café não ajuda, dá aceleração cardíaca, mas sem isso estava boa para dormir profundamente e acordar 100 anos mais tarde, fresca e airosa – finalmente!

    E depois tropeçamos numa família que não é dos anos 50 ou 60, é de 2017. 4 filhos também, meio meio, menino menina, e que em plena semana vão acampar para uma praia deserta no Verão primaveril tão inusitado. E montam tenda e jantam e ainda abrem uma ou duas garrafas de vinho para celebrar os 37 anos da mãe. E têm estampada na cara a mesma expressão de quem curte a vida a cada momento e o facto de viverem na cidade não os impede de curtir a família, fazer pão, ketchup, bolachas, massa, jantares semanais com e para amigos ou plantar os seus legumes. Esta família existe e é tão extraordinária que fiz uma entrevista para tentar perceber o seu segredo.

    viver devagar.jpg

    O segredo está agora também nas (entre)linhas do livro que se chama… Viver Devagar 😉

    Tenho o privilégio de já o conhecer porque fui uma sortuda – a Maria convidou-me a escrever um artigo para o seu livro 😊

    Tenho curiosidade de o ter nas mãos para me deixar imbuir deste espírito relaxado e calmo e tentar viver mais devagar. É uma arte ao alcance de poucos, suspeito que nunca chegarei sequer aos seus calcanhares (além de que o conforto até é uma prioridade cá em casa, já tive a minha dose de tendas 😜 ), mas a sua sábia filosofia vai fazendo caminho…

    Das contradições (e das pequenas coisas)

    Na página de Facebook da Mãegazine acabei de partilhar uma imagem de uma página intitulada Becoming Unbusy. A tirada é esta e diz que no fim da linha não nos lamentaremos do tempo a mais despendido com os filhos.

    A primeira contradição é que se há quem fique contente de despachar filhos para avós sou eu e já estou a esfregar as mãos agora com a Páscoa (eheh). E depois fica-me muito bem partilhar uma imagem destas… Mas essa contradição é humana e até tem graça. E eu sou o perfeito peixe que mordeu o isco.

    Como assim?

    Fui procurar quando surgiu a página Becoming Unbusy no Facebook. Como já não existe a barra do tempo, toca a ir sempre para baixo, e para baixo, e para baixo, e para abaixo e… cheguei ao final do mês de Março. Oi?! A página não se chama Becoming Unbusy?! Oi?! Há quilos de publicações por dia em torno da temática da simplicidade!

    Para quem não sabe, gerir uma página de Facebook que se quer sempre a crescer e sem pagar publicidade exige MUITO tempo: a procurar conteúdos na net; a escrever textinhos apelativos para atrair os cliques; a criar as imagens com as citações com potencial viral; escrever ou procurar as tais citações com potencial; agendar a publicação desses conteúdos todos para não se encavalitarem; responder aos comentários; avaliar as horas/dias/tipo de conteúdo que tem sucesso, enfim, é um trabalho a tempo inteiro e existe e é remunerado.

    O que achei piada é o facto de uma página que apregoa Becoming Unbusy, deliberadamente procurarmos a simplicidade e o retirar coisas da nossa vida e blá blá blá, ter uma atitude tão agressiva e profissional de crescimento online, tão busy justamente 😉

    Ainda me dei ao trabalho de ver o site e a conta de Pinterest da autora e descobri que tinha mais de um milhão de seguidores e quase tantas pastas distintas de temáticas de Pinterest…

     

    E pus-me a pensar na contradição disto tudo: navegamos nas redes sociais para tropeçarmos em tiradas preparadas por profissionais de marketing digital de que o que é bom é… estar fora das redes sociais. 

     

    Nesta época que vivemos, partilhamos filminhos e imagens de simplicidade e empatia e conexão e idas para a natureza e por aí fora e depois não levantamos o rabo da cadeira ou os olhos do ecrã.

    A verdade verdadinha é que é por essa contradição e por ter vontade de ser coerente que só aqui escrevo quando calha, ao contrário de retomar uma actividade blogueira mais intensa, como começou por ser (e que potencial teria!).

    A verdade verdadinha é que combinei com uma amiga que cortávamos no açúcar 6 dias por semana e ao fim de mais de um mês (e algumas bastantes descaídas) quase não noto diferença nenhuma na balança ou nas calças, mas ela recordou-me que o que importa não é forçosamente visível – estamos a cortar um vício e isso é que conta.

    A verdade verdadinha é que ser coerente e evitar ao máximo o plástico descartável faz com que quase nunca possa comer sequer uma salada de fruta ou maçã assada no trabalho e que beba o café quase sempre sem companhia.

    A verdade verdadinha é que ter de preparar iogurtes caseiros (que não sei bem como vão azedando no processo) e o pequeno almoço maravilha de véspera dá trabalho, mas dá ainda mais gozo não ter cereais processados em casa e conseguir sobreviver a isso.

    A verdade verdadinha é que não tenho quase fotos nenhumas (de jeito) dos putos, mas vou coleccionando umas pinturas jeitosas que vamos fazendo ao fim de semana com uma caixa de aguarelas.

    A verdade verdadinha é que não faço nada Montessori ou Waldorf de forma estruturada, mas ponho-os todos a sacar folhas de agriões, de grelos e de espinafres, que depois comem como gente crescida, antes de ficarem hipnotizados com uns quantos contos de fadas lidos à luz de uma lanterna com velas. E tenho a certeza que isso vai marcar a sua infância.

    A verdade verdadinha é que não podemos viver sempre numa contradição e temos de decidir se queremos ficar a consumir tiradas em ecrãs que nos dão a ilusão de uma vida inspirada e mais simples, ou se saímos *efectivamente* da nossa zona de conforto e arregaçamos as mangas para pequenas pequeníssimas coisas cujo resultado é pouco ou nada palpável, glamouroso… ou sequer simples 😜

    Na Mãegazine apregoo menos do que me esforço por fazer, mas não desdenho totalmente as redes sociais, por isso estou no Facebook e Pinterest (e noutras mas sem estar), para além de estar aqui, claro! Subscrições são sempre bem-vindas 😀

     

     

    (outra vez) sobre balanços

    Estou a repetir-me, bem sei, mas lá venho falar de balanços.

    Há os clássicos, na passagem do ano (civil). Entre Dezembro e Janeiro há ali uma fase de fresh new start, página em branco que sabe muito bem. Falo disso aqui.

    Depois há o novo ano lectivo, o arrumar as tralhas das férias e a rentrée – novo ano escolar, novo ciclo de trabalho, novo Outono e Inverno… Mais aqui.

    E depois há os aniversários, nossos e da prole. Continuar lendo (outra vez) sobre balanços

    Curta reflexão sobre as redes sociais e internet

    anna parini
    Sou – assumida e deliberadamente – cautelosa, céptica e apreensiva no que diz respeito às redes sociais em particular e à internet em geral.

    Quando a tecnologia avança a um ritmo alucinante, ou vamos na corrente, ou fazemos alguma resistência (e ficamos contra a corrente de alguma forma). Estou entre os segundos.

    Optei por Continuar lendo Curta reflexão sobre as redes sociais e internet

    Um dia

    peter-reynolds-someday-1
    Um dia é o título de um livro que li num dia que por acaso é o dia de aniversário do meu filho mais pequeno

    Um dia veio lá parar a casa vindo de uma escola de um dos filhos, para ler em família. E foi o que fizemos

    Um dia foi lido pelo filho mais velho, à luz de uma lanterna debaixo dos lençóis. Chorámos os dois copiosamente, ainda por cima por causa do aniversário celebrado nesse dia

    Um dia fala do amor de uma mãe que fica a olhar para a sua filha a dormir e sonha com o seu futuro: Continuar lendo Um dia

    Reality check*

    *sou defensora da língua portuguesa, mas esta expressão tem uma força de concisão e eficácia que ‘confronto com a realidade’ não tem…

    Há profissões em que as pessoas têm de sair da sua bolha e lidam com todos os estratos da sociedade – médicos e enfermeiros, professores, assistentes sociais, jornalistas, bombeiros, polícias e eventualmente muitos outros que não me vêm à memória.

    Mas boa parte de nós vive na sua bolha e lida com pessoas próximas de si, da sua maneira de estar na vida, que partilham um pouco da mesma identidade. E de vez em quando saímos dessa bolha, durante um internamento hospitalar, num trabalho de voluntariado, à conversa com alguém.

    love-katie-daisy

    Do mais corriqueiro para o mais complexo, tive vários embates com a realidade Continuar lendo Reality check*