Do privilégio

Há uns largos dias publiquei na página de Facebook da Mãegazine uma pequena banda desenhada que explicava o que era o privilégio. A BD é esta:

Podemos perceber que, na prática, os diferentes pontos de partida na vida são bem diferentes, o que acaba por condicionar em boa medida o que acontece no desenrolar da mesma.

Hoje ouvi uma emissão de rádio onde uma actriz era entrevistada. Mas a actriz não era uma actriz “normal”, na medida em que não era profissional nem tinha estudado em nenhuma escola de teatro. A actriz é uma empregada da limpeza que faz hora e meia de espectáculo em duo. Foi “descoberta” por um autor que trabalhou com ela e não há qualquer distância entre a mulher e a personagem – são a mesma.

Corinne Dadat tem 55 anos, 4 filhos, um deles a viver na França Ultramarina, e diz que deixou de cumprimentar as pessoas com um bom dia depois de muitas, muitas, muitas vezes o ter feito sem ter ouvido resposta. Diz que as mulheres da limpeza são invisíveis, não apenas por muitas vezes trabalham antes dos patrões entrarem em casa e não se cruzarem. Acumula vários trabalhos, entre o trabalho fixo – limpar um grande liceu – e algumas casas particulares.

Alguns dos professores foram assistir ao seu espectáculo, que vai subir ao palco de um dos maiores teatros parisienses, o Thêàtre de la Colline. Depois de a verem em cena passaram a cumprimentá-la, e até a tratam pelo nome.

Corinne Dadat vai em digressão ao estrangeiro, mas está fora do seu alcance pagar uma viagem à terra onde está o seu filho mais velho. Uma outra filha trabalha nas limpezas, mas diz que é temporário, enquanto se prepara para concursos para certas escolas. Outro filho trabalha numa pizzaria de entregas ao domicílio.

Corinne diz que isto durará o tempo que durar, mas já ganhou o suficiente para comprar um táctil (smartphone) que lhe permite matar a saudade do filho, visitando-o virtualmente com o Whatsapp. Conta que talvez tenha a visita de uma grande actriz de cinema numa das suas apresentações, mas que não se está a tornar numa estrela. E que é muito difícil envelhecer quando se faz um trabalho chato – como o seu.

 

Estamos tão habituados a determinadas compartimentações que nos parece estranho ouvir uma voz assim, com sotaque dos bairros pobres, em antena. E parece inusitado uma empregada da limpeza subir ao palco de um grande teatro – e é, é algo que rasga a convenção, o habitual, o que seria expectável.

Uma das empregadas do bar do meu trabalho, uma mulher de armas e com uma memória prodigiosa para números, desabafou alto com quem lá estava que este ano ainda a íamos ver num caixão: tem uma doença hereditária que se agrava muitíssimo com o stress. O stress advém, entre outros, de ter mais um ou dois trabalhos para além do trabalho de onde a conheço. Uma cliente comentou que se ganhasse bem onde estava, escusava de se desdobrar em trabalhos (e consequentemente aumentaria a sua saúde). É fácil falarmos quando estamos numa situação privilegiada, como é claramente a da cliente que o proferiu. Fiquei a pensar no assunto e no abismo que separa estas duas mulheres – a empregada e a cliente.

Li este artigo que se auto intitula de defesa de uma vida medíocre. A autora defende uma vida medíocre mediana, em que temos ambição qb e aceitamos a vida que temos, com um corpo mediano e não espectacular, com um trabalho com impacto local e não mundial, um ritmo de vida mais lento e menos “MAIS, MAIS, MAIS”, sendo esse MAIS a produtividade, a casa imaculada, a comida sempre saudável, uma atitude materna sempre disponível.
O artigo termina com “What if I embrace my limitations and stop railing against them? Make peace with who I am and what I need and honor your right to do the same. Accept that all I want is a small, slow, simple life. A mediocre life. A beautiful, quiet, gentle life. I think it is enough.”

 

Li este artigo e cruzei com o diálogo que assisti e a história que ouvi na rádio.
E fiquei a pensar como somos uns privilegiados e boa parte do tempo nem temos noção disso.

Curta reflexão sobre as redes sociais e internet

anna parini
Sou – assumida e deliberadamente – cautelosa, céptica e apreensiva no que diz respeito às redes sociais em particular e à internet em geral.

Quando a tecnologia avança a um ritmo alucinante, ou vamos na corrente, ou fazemos alguma resistência (e ficamos contra a corrente de alguma forma). Estou entre os segundos.

Optei por Continuar lendo Curta reflexão sobre as redes sociais e internet

Resoluções de Ano Novo | modo de usar

Depois de preparar o terreno para as habitualmente falhadas boas intenções de ano novo, evocando as extraordinárias virtudes do mês de Dezembro, volto à carga com esta história de resoluções de ano novo. Por uma razão muito simples – este ano não quero falhar.

Depois de um final de ano particularmente stressante, chego à conclusão que all I want for Christmas New Year is:

paz_Joyce Schellekens

Paz de espírito e menos stress

(e mais umas coisitas) Continuar lendo Resoluções de Ano Novo | modo de usar

Resoluções de Ano Novo | o pensamento mágico

Vou partir do pressuposto que pensas como eu:

Dorian Vallejo 5

Chega o Natal e achas, porque é Natal, que as coisas vão correr bem. Afinal é o mês de Dezembro, da generosidade, de um Salvador que traz boas notícias, nomeadamente de esperança para o nosso mundo cansado, poluído, injusto, corrupto e corrompido, mesquinho, avaro e egoísta. Mesmo que não acredites em salvadores nenhuns, acalentas a íntima esperança de que desta é que é, as coisas vão ser diferentes, o mundo vai ficar melhor.

Consomes-te em listas de presentes e idas às compras, de prendas ou de comida ou dos ingredientes para cozinhares. Aguarda-te a noite da consoada. Continuar lendo Resoluções de Ano Novo | o pensamento mágico

Balanço de 2015 | Mãegazine

Este é o meu 100º artigo publicado. Hooray! Achei por bem fazer dele o artigo do balanço do ano.

balanco maegazine 2015

Comecei este site em meados de Maio de 2015. Há 7 meses, portanto. Apesar de ser um projecto recente, foi um projecto muito maturado, até se tornar uma realidade, com a compra do domínio. 2015 foi por isso, entre outras (importantes) coisas, o ano do site.

É um cliché dizer-se que o caminho se faz a caminhar, mas é a mais absoluta das verdades. Tinha uma ideia mais ou menos vaga do que queria, com algumas directrizes muito claras – sendo a principal a clareza e qualidade gráfica das imagens escolhidas e do site em si. Continuar lendo Balanço de 2015 | Mãegazine

Quando nos questionamos sobre o plano B da vida

Há dias vi esta imagem que aqui reproduzo, da autoria do ilustrador catalão Jordi Labanda. Fiquei a pensar nela e associei-a a um belíssimo texto, outonal, do José Tolentino Mendonça, que tem uma rara capacidade para escrever sobre a alma humana.
A certa altura escreve ele:

(…) Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. (…) Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu. Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tetos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Continuar lendo Quando nos questionamos sobre o plano B da vida