Consumo responsável | cosmética e toilette

Uma boa forma de rever e reflectir sobre o nosso consumo é começar pelo que colocamos na nossa pele.
Se vamos agarrar o boi pelos cornos, ao menos podemos começar por uma parte mais… macia 😉

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Quando era miúda na década de oitenta em Portugal, havia um anúncio de loção hidratante Johnson. Se bem me lembro, era dos poucos cosméticos com publicidade na televisão. Desde então houve um autêntico crescimento exponencial de empresas e produtos e afins (pudera, o preço ao litro é astronómico). Hoje em dia a dificuldade é escolher entre taaaaaanta variedade.

Os ingredientes usados nem sempre são grande coisa para o organismo, como o alumínio nos desodorizantes. Como me explicou um dermatologista, o organismo vai guardando os ingredientes que o corpo não absorve e ficam de certa forma armazenados. Depois por uma razão ou outra, como demasiado calor ou frio, esses produtos acabam por sair… da pior forma, em reacções alérgicas por ex.
Também li numa revista da marca Weleda que a composição química das gorduras mineral, animal e vegetal são bastante diferentes. A gordura vegetal é a ideal porque é completamente decomposta pelo nosso corpo e por isso não há excedente que fica a circular. A animal também não é má (como a lanolina, remédio santo para lábios gretados), mas o organismo não consegue absorver tudo da gordura mineral (mineral oil ou parafina, como se lê nos rótulos) e o lixo fica guardadinho cá… Gente da ciência pode confirmar isto, pf?

A pele é o maior órgão que temos e a qualidade dos produtos que usamos pode ter uma grande influência na saúde a médio e longo prazo. Aquilo que hoje vemos como produtos sem parabenos, silicones, ftalatos e outros ingredientes é fruto de uma maior consciencialização e crítica do consumidor, por um lado, e estudos e resultados por outro.

Há muito que estou atenta a um site dedicado à cosmética e os produtos químicos usados nos mesmos. Podem consultá-lo aqui: Safe Cosmetic Database que entretanto mudou o nome (e o site) para EWG Skin Deep. Como eu sou uma rapariga relativamente organizada, salvei um pdf com 100 ingredientes a evitar. Está aqui e é inglês (e não me lembro de onde vem). Para além dos parabenos e os outros atrás referidos, não é mau pensado evitar estes ingredientes…

Se a composição é um aspecto, o empacotamento é outro. Há marcas (poucas) cujas bisnagas são de metal, mas a maior parte usa plástico. Umas quantas usam vidro, para óleos e afins.

A criação dos próprios cosméticos é algo de espectacular, mas… exige 1. termos acesso às matérias primas necessárias (que nem sempre são vendidas a granel ou sequer nas farmácias); 2. sermos verdadeiros químicos em casa própria, com balança e precisão; 3. termos disponibilidade para procurar as receitas, os ingredientes, juntarmos tudo, pormo-nos ao trabalho, etc.

Claro que com a prática a coisa torna-se mais fácil. Há também a possibilidade de comprarmos as coisas já feitas, como sabonetes em barra, para o corpo ou para o cabelo (vendidos a preços upa upa!).
É pena a The Body Shop ter perdido a lógica inicial da sua criadora – ainda me lembro de ir ao C.C. Roma encher o frasco de gel duche (sou mesmo cota)! Agora a marca faz parte da grande multinacional L’Oréal e a lógica não é bem essa…

É por isso um bocado complexo termos um consumo responsável e que evite o desperdício no que toca à cosmética e à pele.
A Béa Johnson do movimento desperdício zero fala em usar cacau como pó bronzeador. Vou ser honesta – sou viciada em pó bronzeador e fui logo experimentar. Para além de ficar a cheirar bem, não vejo mais vantagens – o efeito está looonge de ser tão bom como a maquilhagem pro e… fiz reacção irritativa! Ena. Por isso nem experimentei a canela, ui ca medo.

Cada um é como cada qual e não há uma medida certa para todos.

Partilho aqui as minhas descobertas, opiniões e sugestões:

Maquilhagem

O ideal é usar o que já se tem, ponto. Mas como o prazo de validade é limitado, as coisas acabam no lixo ou na pele, se lhe dermos uso. Iludirmo-nos e comprarmos se não vamos usar é uma idiotice na qual tenho a tendência de cair. Recusar o apelo do consumo e reduzir a quantidade de produtos limitando-nos aos básicos que efectivamente usamos é já um grande salto. Só isto faz logo uma grande diferença no armário da casa de banho e na carteira.

O melhor é optar por produtos que tenham bons ingredientes e um bom equilíbrio entre qualidade/embalagem. Os meus favoritos são (and the winner is):

  • máscara e lápis dos olhos da La Roche Posay (maravilhoso para gente sensível, zero ecológico, é do grupo L’Oréal também)
  • lápis corrector de olheiras da Body Shop (dura décadas, bons ingredientes e embalagem é madeira mesmo)
  • pó bronzeador Nvey Eco (custa um ror de dinheiro mas é o melhor que tenho e usei até à data, todo xpto ecológico e não-sei-o-quê e dura bastante)
  • creme colorido da Caudalie (bons ingredientes, óptima tolerância, embalagem plástica mas boa política da empresa em geral)

Quanto à base líquida, há marcas com produtos biológicos que nunca suspeitaríamos (como a Bourjois, por ex.) (e esta, hein?!) e uma miríade de marcas, mais ou menos sustentáveis. Pessoalmente não gosto de usar, é demasiado compacto e prefiro cremes coloridos mais translúcidos.
No entanto a Body Shop tem base em pó mineral com dióxido de titânio, que funciona como factor de protecção solar. Pessoalmente gosto e escrevi para a marca a perguntar o tamanho das partículas de dióxido de titânio (sim, sou dessas pessoas) e a resposta foi: “The mineral particles on EXTRA VIRGIN MINERALS are microcronised particules (10-6 m)”. Ou seja, não são nano partículas (está estudado que as nano partículas deste ingrediente podem estar associadas a um aumento de probabilidades de risco de doença de Alzheimer). O risco não está tanto na absorção pela pele, mas pela inalação do pó, mas estas partículas são grandes demais para entrar nos pulmões e por isso é um produto relativamente seguro.

Desmaquilhante

Uso gel duche para bebé para lavar a cara, não pica nos olhos e é suficientemente suave para não irritar a pele. O sabonete não tem o mesmo efeito, mas é questão de ir tentando. A parte de não picar os olhos é a mais complicada…

Desodorizante

Há que tempos que uso a pedra de alúmen. Dura eternidaaaaadeeeees e é globalmente eficaz, excepto nos dias piores de Verão… Compra-se uma vez, traz um bocado de plástico para a fechar e dura uma vida. Fim da conversa.

Cremes de rosto

O problema das receitas caseiras (been there, com óleo de amêndoas doces e manteiga de karité e banho maria) é que ou sabemos mesmo fazer a coisa ou sai asneira. A pele sensível (✔) não aguenta tudo e por isso apostar nos profissionais não está mau pensado. Penso que o que muitas vezes acontece é que usamos demasiada quantidade. O dermatologista disse: medida de um bago de arroz para o contorno dos olhos, uma ervilha para a cara e é tudo. Com estas medidas os cremes duram décadas 😉 No que me toca encontrei os produtos ideais:

  • creme de calêndula bioecocrema da marca italiana Bema (embalagem plástica, 100ml, barato, excelente tolerância e absorção, óptimos ingredientes ecológicos, para a família toda)
  • óleo de argão para a noite (vende-se em frascos de vidro, excelente tolerância e relativa boa absorção, mas como é para dormir a seguir…)
  • pessoalmente dou-me bem com os cremes e óleos e séruns da Caudalie, os últimos em embalagem de vidro. São caros mas duram mais de meio ano, vejo resultados, boa tolerância e composição simpática. Não me vejo a trocá-los por receitas ad hoc.
Creme hidratante para o corpo

Um problema. Não vejo como contornar a situação de comprar embalado em plástico. A manteiga de karité (ou a de cacau) deixa a pele toda oleosa e é uma chatice. Não se vende a granel em lado nenhum. Serão as receitas caseiras uma boa opção? Alguém tem sugestões que queira partilhar? Aceitam-se de bom grado 🙂

Verniz das unhas

Tipo, esqueçam. Na loja Miosótis bem que podem vender vernizes bio, mas isso é um oxímoro. Os vernizes são feitos com os mais tóxicos dos ingredientes (mais a acetona para tirar) e as grávidas devem fugir deles como o diabo da cruz. Ecologistas arreigadas não pintam a unhaca, ponto.

Perfume

Estão carregados de ftalatos e fazem mal que se fartam. Por isso só borrifo para a roupa, sempre é menos mau. Pessoalmente evito o contacto com a pele e acho aberrante vender-se perfumes para crianças e… bebés?!?! A ecologia não entra neste domínio, mas a marca Fragonard vende os perfumes em frascos muito bons de vidro que se podem depois lavar e reutilizar  😊

Sabonete

Comprar em barra com bons ingredientes, já agora, é de longe a melhor opção. Atenção só à lavagem das partes pudibundas – se o sabonete é partilhado isso pode ser um foco de transmissão de fungos ou outras chatices. Assim como assim para a flora bacteriana vaginal ficar saudável basta lavar com água, porque o sabonete arrasa com as bactérias boas que demoram 24h a crescer novamente… até ao próximo duche :p

Champô

Outro problema se não se quiser encher a casa de plástico, claro. A Phyto vende champôs muito bons em embalagens de alumínio que podem ser bem úteis para guardar detergentes caseiros ou afins, mas são caros.
Já tentei um champô em barra e não só durou pouquíssimo (derrete na saboneteira), como o resultado foi péssimo. A Lush vende uns carérrimos (162€/kg) (chocante, não é?) que são capazes de resultar, mas o preço é tão proibitivo que dá vontade de me armar em cozinheira/química. Receitas testadas e aprovadas precisam-se!

Creme amaciador de cabelo

Bloqueio mental total. Nada, niente. Não vislumbro alternativa aos comprados e vendidos em plástico (ou nos tais frascos de alumínio).

Tónico capilar

Li que um punhado de folhas de manjericão fervidas em água durante 15 minutos e tudo esmagado e filtrado e aplicado no couro cabeludo fazia crescer mais o cabelo. Se resultar escrevo aqui (está em teste, ah ah)

Aclarador/pintura de cabelo

Evitem que um chá ultra concentrado de camomila entre em contacto com roupas ou superfícies brancas, como a paredes, durante a fase de criação/aprendiz de feiticeiro. E não me alongo mais.
A francesa do lixo zero usa limão e põe-se ao sol a queimar o cabelo.
Os cabeleireiros usam resmas de produtos químicos péssimos para o ambiente e tudo e tudo. É medir os prós e contras e fazer o que se acha melhor para si próprio, mas as pinturas de cabelo em geral raramente são amigas do ambiente, excluindo talvez a hena…

Champô seco

A francesa fala em amido de milho para espaçar as lavagens. Ainda estou a usar um pó para o rabo de bebé (alternativa ao talco) da marca biológica alemã Töpfer e funciona bem (embalagem plástica). O amido fica para quando este acabar.

Protecção solar 

É preciso abordar isto com alguma precaução. Em primeira instância é impossível encontrar certos ingredientes a granel. Segundo, esses mesmos ingredientes não são inócuos e por isso devem ser manuseados com cautela. Em terceiro lugar tenho para mim, por leituras que fiz, que quanto mais longe das nano partículas, melhor. Os minerais são, à partida, mais seguros do que os protectores químicos, mas deixam a pele branca (experimentem cremes biológicos e vão ver a cara de geisha com que ficam). A solução encontrada pela indústria foi partir os minerais até terem uma dimensão tão pequena que se medem em nanómetros. Assim reflectem o sol e não ficam brancos na pele. O problema é que com essa dimensão as partículas entram na pele, para camadas muito profundas e isso pode não ser nada, mas mesmo nada bom a médio /longo prazo. Tirem as vossas ilações, informem-se e façam como vos dita a consciência e a carteira.

Aquela fase do mês 

Sem dúvida que o copo menstrual é, de longe, a alternativa mais sustentável. Implica um investimento de cerca de 30€ e outro a tentar usar aquilo (não é evidente e implica um certo à vontade), mas é bom para os dois ou três primeiros dias.
Quanto a pensos, regressar a toalhas e tecidos reutilizáveis é, para mim, um retrocesso ao tempo das avós que não estou para ter. Dentro do género, os pensos que não têm embalagens unitárias são bem menos poluentes (e bem mais espessos também). A marca Renova tem uns Reglex que até o grafismo é o dos anos 80 70. Presumo que sejam mais de algodão do que a maior parte dos outros pensos do mercado, mas digo isto só por dizer.

Piolhos 

E, finalmente (como não falar deste assunto num site para mães?!) como tratar dos indesejados parasitas? Pelo que li, a melhor forma de controlo da praga é a mecânica, passar com aqueles pentes horríveis regularmente na cabeça da prole. Com carradas de amaciador, claro está. Decidi comprar (online) uma loção natural para erradicação dos mesmos. Afinal os dois ingredientes antes do perfume são… Óleo de girassol e óleo de coco. Oh, francamente, para isso escusava de ter gasto perto de 9€… Mas é então dado adquirido que uma gordura que fica 10h na cabeça (com toalha, eu usei filme plástico transparente enquanto dormiam), resulta para eliminar os piolhos.

Também comprei um spray borrifador na farmácia, para prevenção, mas depois do álcool tem propileno glicol como 2º ingrediente (a evitar).  Enfim, vou usar o que já tenho, mas estou a usar igualmente uma receita caseira de água, vinagre de vinho branco e óleos essenciais de árvore do chá (melaleuca alternifolia) e alfazema, consta que não gostam disso. Depois do choque inicial, o cheiro a vinagre desaparece e fica a cheirar a alfazema. Também parece que colocar umas gotas do óleo essencial de alfazema directamente na pele, atrás das orelhas, ajuda a manter os bichos a milhas. Vou testando com a piolhada lá de casa :p

Em jeito de conclusão

Esta é a minha leitura e abordagem pessoal desta coisa do consumo responsável e sustentável. O desperdício zero não é para mim um objectivo em si, a obter a todo o custo. Tampouco diabolizo a indústria cosmética, que deu saltos qualitativos incríveis e que se reflectem, literalmente, na nossa cara. Defendo o bom senso, senão corremos o risco de deitar o bebé na água do banho para regressarmos ao Portugal pré 25 de Abril, onde não havia nada de nada ou lá perto.
Assim de repente acho que toda a gente vai achar menos glamouroso e apelativo deixarmos a comunidade global, urbana, educada, estilosa (e muito lucrativa à sua maneira) do “DIY” para regressarmos a Trás-os-Montes nos anos 70 e ao tradicional sabão azul e branco para a roupa, pele e cabelo. É ultra sustentável, garanto-vos! 😀

Actualização – descobri este sabonete português feito no Alentejo com azeite e leite de uma cabra de Serpa e que parece ser uma das maravilhas de Portugal, acreditando no que o Miguel Esteves Cardoso escreveu aqui.
E para os aventureiros, estas senhoras dão mini cursos de como criar os seus próprios cosméticos (hum…).

Actualização depois da actualização – estou louca com esta família de 4 em França. Ela é ilustradora (e desenha à maneira) e os filhos são crianças ainda. O site é SUPER giro e apelativo e tem receitas, mas nem todos os ingredientes se encontram em Portugal… 😦
Eis a Famille zero déchet

melro

Aqui no Mãegazine abordam-se questões de educação, crescimento interno (mas não bruto) e… sustentabilidade! Já escrevi um outro artigo e este inaugura uma série que passará por diversas áreas de consumo. Mas como é um site de mãe vaidosa, começa-se pela cosmética ;). Dá para acompanhar via mail, Facebook ou Pinterest (onde ando agarradinha a ‘pinar’ imagens e artigos jeitosos).

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