Dos desajustes – da maternidade para a cama

Contrariamente a outros sites de mães, que põem em evidência o que de melhor acontece na vida familiar num registo auto-biográfico, não escapo à natureza do Mãegazine: o individual é apenas o ponto de partida para uma reflexão mais alargada, muitas vezes sobre o que de pior acontece (oh well 😏).
Vamos falar de desajustes? Desajustes na forma como nos vemos como mães? Desajustes na forma como vivemos a sexualidade?

Ora noutro dia tive a feliz oportunidade de ver um vídeo com a minha mentora Laura Markham, doutorada em parenting.

No vídeo, ela dizia que quando o bebé nasce, ficamos completamente apaixonados e prometemos fazer tudo por eles, coração a transbordar. Projectamos o futuro, nós ao seu lado a acompanhar a sua exploração da vida e do mundo.

E não podemos acreditar, nem nos reconhecemos, quando aquelas pequenas criaturas adoráveis nos levam a explorar os nossos próprios píncaros de raiva, frustração, tão longe do ideal de amor incondicional que descobrimos com eles e sabemos existir, mas que se escondeu sabe-se lá onde.

Quem é este monstro (válido para pais e filhos)?! De onde vem toda esta agressividade, desconhecida até aqui, eu que me julgava equilibrada e ponderada?!

Este monstro são as emoções não reguladas e filtradas pelo córtex pré-frontal, vindas direitinhas das duas amígdalas do cérebro. São as hormonas do stress, que existe para nos proteger, mas versão roda livre, consequentemente versão destrutiva.

Os bebés e os choros descontrolados, as crianças pequenas e as suas birras, as de idade escolar, que se recusam a ouvir-nos, os pré adolescentes e as suas reivindicações, os adolescentes e todo o seu comportamento a testar limites – francamente não há nenhuma fase em que não nos levem aos píncaros, carregando em TODOS os botões do nosso ser, aqueles que desencadeiam reacções inflamadas (para ser gentil) em nós.

É esta realidade menos gloriosa, mas igualmente presente, que me interessa, conversa honesta sobre como gerir a parte sombria de nós mesmos (artigos sobre isso aqui e aqui).

Acontece que esta realidade está justamente ausente na imagem que damos, como sociedade, da maternidade.

Dos anúncios aos filmes aos blogues (que podiam ser fontes de autenticidade, mas tendem para a auto-glorificação, deliberada ou não), a imagem que é dada é adocicada.

Como resultado, a percepção que temos de nós como mães é de falhanço e frustração, pois estamos longe (falo por mim, pelo menos) destas referências e modelos de pura felicidade e amor transbordante.

Isto é assim com a maternidade e será com outras coisas?

Chamaram-me a atenção para um artigo sobre a sexualidade, um artigo que foi publicado no jornal Le Monde. A autora fala precisamente do desajuste entre a imagem que temos de uma vida sexual feliz, em boa medida veiculada pelos media, filmes, etc, (não sendo profissionais nesta área, médicos, terapeutas, etc, como podemos ter referências de comportamentos íntimos?) e a realidade, com líbidos pouco animadas ou ideais de performance no extremo oposto do que conhecemos?

A autora diz que um terço das francesas simula ter orgasmos, de forma a não desapontar o parceiro. E isto num país ocidental, que conheceu os Maios de 68 e afins. Nem imagino noutras culturas, onde a mulher tem um papel acessório e subalterno…

Retomo as perguntas que já fiz, e que se aplicam igualmente à nossa sexualidade:

Onde está a minha liberdade? Quem define o meu sucesso? Com que bitolas vivo a minha vida? 

Quando nos libertamos das imagens com que somos bombardeados? Quando nos viramos para a nossa realidade, para o concreto, para o que temos, para o que somos, para aqueles com quem partilhamos a vida, sem expectativas ditadas por outrem?

Isso sim, seria uma revolução. Mas não é glamourosa nem vende, por isso é continuar a sonhar (e a escrever)

ps – há um artigo sobre sexo de que gosto particularmente. É este, em inglês

 

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3 anos de Mãegazine

Há dias renovei o domínio e pensei em como a regularidade e os conteúdos aqui publicados mudaram. Mudaram tanto quanto eu.

A cartoon by @eflakeagogo. #TNYcartoons

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Dei por mim, há dias, a pensar que há alturas na vida em que uma determinada coisa, situação, interesse, enfoque, etc, faz tanto mas tanto sentido. E aquilo somos nós, a nossa paixão, o nosso interesse.

E passados uns tempos, vemos que estamos noutra determinada coisa, situação, interesse, enfoque, etc. E também somos nós, mas outra perspectiva nossa.
Era mais ou menos eu antes?
Sou mais ou menos eu agora?


Penso por vezes no papel deste site. Comecei a escrever em blogues desde 2009, no Melro Azul. Em 2015 comecei aqui. Nestes 9 anos há muitos, mas mesmo muitos blogues que surgiram – e vingaram.
Mas a internet foi mudando, da velocidade da ligação ao tipo de acesso, cada vez mais nos telefones. Tudo isso mudou muito e muito depressa.
Não tendo apanhado a carruagem da ‘profissionalização’, faz sentido pensar nisso? Escrever de forma regular, com todas as vantagens que isso traz? Traz alguma mais valia para quem por aqui passa? Ou não há paciência e só se querem coisas para consumo/leitura rápida?


Se as hormonas me fizeram ficar completamente focada na maternidade e em formas de (tentar) ultrapassar as dificuldades de gestão de 2 pequenos mais um recém nascido (e consequentes 18 meses de privação de sono) – procurando desesperadamente soluções e consolações – sinto estar hoje noutro patamar. Sem dúvida que a precisar, como antes, de soluções e consolações, mas mais com a mão na massa, por assim dizer. Essa realidade real faz-me, fez-me ficar afastada da realidade virtual, ao que ao blogue diz respeito, pelo menos.

Curiosamente senti-me completamente no mesmo comprimento de onda da minha mentora Tsh Oxenreider, quando afirmou estar noutra e já não sentir aquela vontade/necessidade de escrever no blogue, em parte por sentir que já tinha esgotado o tema da simplificação/declutter/downsizing. Como eu a percebo.

Durante anos estava completamente absorta por essa temática, acho que por ser tão rara de encontrar. Os meus anseios e preocupações encontravam a resposta feita à minha medida no Simple Mom/posteriormente The Art of Simple.

Uns 8 anos volvidos, francamente não tenho muito mais interesse em explorar esses assuntos por estes lados. Cada vez mais penso que cada um sabe de si e do que se adapta à sua vida. Os valores que defendo são os mesmos – sustentabilidade, qualidade em detrimento da quantidade, responsabilidade ecológica e social – mas cada vez mais penso que não há um modelo que sirva a todos, porque todos somos diferentes. Mesmo nós mudamos e ficamos diferentes, quanto mais!


Isto leva-me a outra consideração – quão difícil e essencial é conhecermo-nos e aceitarmo-nos.

A cartoon by J.B. Handelsman, from 1998. #TNYcartoons

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Penso nisso muitas vezes, quando a desfilar imagens (no Instagram) me deparo com estilos de vida fabulosos. Eu sei, eu sei, são boa parte ficcionados e encenados para a foto, com uma boa curadoria e edição de imagem,  o mesmo filtro e o diabo a sete. Mas fico com a sensação de que têm todos uma vida muito melhor que a minha. Mães mais magras, giras, estilosas, cabelos fabulosos, férias inacreditáveis, relações perfeitas, filhos sempre calmos e por aí fora.

Quanto a nós, nunca somos o suficiente. I can’t get no satisfaction 😉
O que temos não é suficiente (ou o que já não temos, depois do declutter que fizemos entretanto, ah ah).
Não sou suficientemente elegante, descontraída, inteligente, perspicaz, ambiciosa, empática, competente, focada, relaxada, divertida, leve, amorosa, carinhosa, boa mãe. Sinto-me sempre aquém do que deveria ser, das bitolas do verdadeiro sucesso.

Peacocking. A cartoon by @willmcphail4. #TNYcartoons

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Mas afinal quem é que define o sucesso? O que é o sucesso ou realização para mim?

Onde está a minha liberdade? Porque tento sempre medir-me numa escala irrealista e utópica?

Porque é MUITO difícil manter a cabeça fria numa sociedade virada para o consumo, de produtos ou de estilos de vida, definidos pelos consumos que faço.

Estas reflexões encontraram a (quase) perfeita resposta num fabuloso artigo de uma bloguista que já aqui tinha referido, a propósito dos mitos que fazem de nós mães miseráveis.

O novo artigo é porque é que a frustração está tão associada à maternidade nos tempos actuais?

A autora, que trabalha com mães, diz que frustração é a palavra que define o mínimo denominador comum a TODAS as mães com quem lida, seja qual for o estrato social, económico, académico, etnia, idade. Todas se queixam de se sentir frustradas como mães.

Isto faz-me pensar naquela imagem fantástica do que se espera da maternidade nesta 2ª década do séc XXI:

E, para explicar a origem da frustração, não só enumera umas 33 (sim, trinta e três) razões, como pede sugestões para mais na caixa de comentários. E há mais!
Francamente leiam que vale a pena. Ela tem uma abordagem meio alternativa (encontros da lua e essas coisas…) mas é espectacular nas inúmeras pistas que aqui levanta.

E, francamente, se é para ler blogues de mães, que seja assim, uma reflexão daquelas. Quem dera ser capaz do mesmo ^_^

Por agora fico por aqui.

 

 

 

Aprendizagens e desafios de final de ano

Ena, apercebo-me que não escrevia há semanas…

Não sei como é a vida das outras famílias, mas este trimestre foi em aceleração e espalhafato.
Incluiu mesmo muuuito stress que acabou por desembocar em mais de um mês inteiro de problemas gástricos (todos em casa), incluindo um mês a comer arroz branco por causa das náuseas que se trataram com omeprazol; máquina da roupa inexistente durante 15 dias (fantástico quando se tem a roupa toda cagada suja a vir em sacos de plástico da creche dia sim dia sim); uma contractura no ombro bastante incapacitante durante 2 semanas e o gradual e inexorável definhar – e consequente morte – de um animal doméstico.
Ufa. Foi duro. Mas não é uma estreia de merdas chatices em catadupa. Aliás, já tinha referido que as chatices vêm aos cachos, mas mudei para as pipocas no micro-ondas, é uma metáfora mais gráfica e realista.

Adiante.

As coisas vão melhor, já temos máquina de lavar roupa, já não temos animal de estimação, estou uma elegância (e a enjoar cada vez que saio do virtuoso percurso da comida saudável, o que permite manter o peso, yeah) e a vida vai reentrando nos eixos, com as viroses lá longe (lagarto, lagarto, lagarto).
Há quem não goste de partilhar o lado merdoso menos sorridente da sua vida, pois eu tenho menos pruridos, se vos fizer rir ou sentir-se acompanhados, tanto melhor – não estão sós.

Mas não queria, ao fim de uma data de semanas, vir para aqui apenas queixar-me, queria antes partilhar umas reflexões e uma espécie de balanço, o de 2017!

Começo por esta imagem que tinha partilhado há uns tempos no Facebook do Mãegazine e que taaanto preciso de integrar na minha vida! Veio-me à memória quando, como é habitual ao jantar, está tudo aos berros e às birras (vá, sintam-se melhor). Decido pôr os meus tampões dos ouvidos, porque estou cada vez mais convencida de que esta overdose sensorial é o factor nº1 de stress ao final do dia e cortar o som (melhor do que enxotar os putos ou desaparecer da divisão da casa) (ou da casa inteira mesmo) faz milagres.

E comentei com o meu homem que, depois de um dia inteiro de trabalho, levar e ir buscar putos, cozinhar e tentar que todos se sentem à mesa e levar com doses maciças de:

1. paladar (tentar comer o jantar, certo?),

2. tacto (putos agarrados a mim ou a tocar na perna/cara/mão/costas/etc),

3. visão (putos a levantar e sentar/saltar/sair/entrar/deitar comida ao chão/etc),

4. audição (nível de decibéis a roçar a loucura, especialmente de uma das crianças que nasceu com um megafone integrado)

5. olfacto (sim, às vezes inclui justamente o que estão a pensar e leva-me aos píncaros da loucura)

a coisa só podia resultar mal.

Temos demasiado stress nas nossas vidas. Ponto.
Mas como não dá para retirar nenhuma das coisas da equação (largar trabalho/largar escola/largar carro/largar refeições/largar crianças) (antes que se ponham a argumentar digo apenas que cada um sabe da sua vida e do que pode abdicar ou não, proselitismos não, sff) (grata pela compreensão), só dá para retirar o que me estraga o descanso. E que é (adivinhem adivinhem) – tchanan! estar demasiado tempo online!

O deixa só fazer um refresh na aplicação e ver a história ou a foto ou quantos gostaram ou o vídeo tão fixe ai e a notícia escabrosa e o artigo partilhado e… alto!

E o meu descanso? E o meu apaziguar interno? E a minha paz interior, para acalmar aquilo que sabemos muito bem que está lá mas tentamos calar com distracções digitais ou idas às compras que sabemos de antemão que não adiantam de muito, o afago no ego é volátil mas o saldo negativo já não?

Quando dei por mim a fritar, passei 3 dias num retiro de mais ou menos silêncio. Vim numa paz e calma que nunca imaginei ser possível, pelo menos em mim, pilha de stress que sou.
Entretanto nem uma semana durou, foi o mês das chatices atrás descritas. Mas ficou-me a plena noção de que 1. este espaço interior existe, 2. é possível aceder a ele, 3. exige trabalho, muita dedicação para manutenção, mas o que se ganha não tem preço.

Uma das coisas que ouvi, e que vos deixo como reflexão, foi:

As minhas distracções ajudam-me a ser a pessoa que sou? Ou afastam-me?

Cada um tem a sua própria experiência individual, mas todos os anos, no final do ano, faço o meu balanço, preenchendo estas respostas (em inglês). E, como é hábito, o meu biggest time waster é o tempo passado nas redes sociais (que trouxeram imensas vantagens, não estou a diabolizar, atenção!). A imagem acima reproduzida explica o porquê do lado nefasto destas redes… e como isso, no meu caso, me afasta da pessoa que sou (foi uma revelação saber que podia ser calma e soube demasiado bem para abdicar da sua conquista).

 

O final de ano está aí, a fase de bebé, infância e mesmo adolescência passam demasiado rápido, assim como a nossa vida – e vejam isto para se lembrarem (é de ir às lágrimas) (não digam que não avisei). Um pequeno balanço e uma aposta no que nos aproxima de nós mesmos (ainda que em potência) penso que são bons conselhos.

Se precisarem de mais ideias tenho aqui uma selecção de artigos mais antigos, que penso que continuam igualmente válidos e actuais.

 

Pela minha parte, vou vislumbrando o caminho que quero seguir – e que inclui tampões nos ouvidos.

Estou deste lado se quiserem partilhar os vossos.

 

Feliz Natal e um 2018 com muita saúde… e paz

Instagram ou a estetização da vida

Estava totalmente alheada ao Instagram até ver o seu (novo) logotipo estampado numa das faces dos sacos de plástico de um supermercado, isto aqui há uns meses, talvez um ano.

Ok, já sabia da sua existência e do seu crescente peso, isto de se acompanhar blogues norte-americanos dá para saber destas coisas um pouco antes de chegarem em força ao velho continente…

Sugeri começar e editar uma conta IG (carinhoso nick) no meu local de trabalho. Ei! Estamos onde as pessoas (e o mais novos) estão!
Para conhecer é preciso participar, para perceber os meandros, as abordagens, as linguagens, os emojis, as stories, as narrativas, os filtros, as desfocagens, as mensagens, os taganços e hashtaganços.

Seja.

Assim fiz.

Na minha conta pessoal, necessária para a gestão de contas profissionais, pus-me a seguir amigos, conhecidos, desconhecidos, celebridades, bloguistas, artistas, músicos, instituições, poucas marcas, quase nenhuma.
Nas incontáveis horas nocturnas a explorar este novo mundo visual (não esquecer que é a minha área de formação), fui-me apercebendo das diferentes formas de utilização: mais recatada, mais exibicionista, é só família, é tudo menos família, é a minha arte, é a minha digressão, é a minha cara laroca, é a minha leitura de Verão, é a minha actividade fora de casa, dentro de casa, é a minha refeição, é o meu turismo, é o meu staycation, é o meu carro, é o meu canário, é o meu cão (qualquer semelhança com a canção do Jobim é deliberada). Dos outros e minha, naturalmente.

Como li algures, nesta época pós crise do subprime, as experiências são uma moeda de troca, que nos enchem de prestígio e nos dão pontos sociais, e o Instagram, com as suas fotos quadradas (ou não), são o reino das experiências traduzidas em imagens, sem grande espaço para a reflexão.

As imagens evocam-nos mundos, realidades, em boa parte ficcionais, como expliquei neste artigo onde analiso (e fiquei toda contente por ter encontrado a chave de compreensão) o imaginário evocado por uma glamourosa cozinheira sino-francesa.

Acontece que posso fazer boas análises de imagem, mas não sou filósofa ou escritora (com pena minha), por isso recorro aos especialistas, como o meu sempiterno Tolentino Mendonça, que na edição de 4 de Agosto do jornal Expresso escreve o seguinte, num texto intitulado “O Verbo Fotografar”:

Talvez a saturação sem precedentes em que o mundo contemporâneo mergulhou, no que diz respeito à recolha e divulgação de imagens, nos tenha, paradoxalmente, tornado mais distantes do verbo fotografar.
Repetindo obsessivamente gestos que se diriam os mesmos de um fotógrafo e obtendo, em contínuo, imagens que ainda chamamos, à falta de outro nome, fotografias, poderíamos pensar que a nossa época assiste ao triunfo do homo photograficus.
Fotografar tornou-se um ato espontâneo, uma forma acelerada de comunicação, uma expressão inconsequente e divertida das nossas sociabilidades. Nesse sentido, deve reler-se o texto profético de Paul Valéry, escrito em 1982, com um título, porém, não isento de ironia, “A conquista da ubiquidade”.
Valéry vaticina que, tal como a água ou o gás da companhia chegam, sem esforço para nós, às nossas casas, chegará o dia em que nos alimentaremos de imagens, que nascerão e se apagarão automaticamente. Esse dia já chegou e vem servido em doses sobreabundantes, num caudal que nenhuma torneira é capaz de controlar.
Um texto recente da psicanalista Elsa Godart, “Faço selfies logo existo”, mostra bem o que está em jogo, de forma declarada ou latente, nesta enxurrada de imagens que quotidianamente nos submerge:
um desesperado desejo de ser, mesmo que não saibamos o quê; uma compulsiva vontade de saber que estivemos ali, naquela situação e naquele lugar, sobrepondo-se esse exibicionismo a qualquer outra partilha de razões ou de sentido. Recebemos e emitimos imagens que pretensamente ampliam, em rede, a realidade.

Mas a verdade é que o seu resultado, na maior parte das vezes, redunda num imenso empobrecimento comunicativo. Quando reduzimos o mundo a uma acumulação de imagens simplificadoras, as imagens simplificadoras susbituem-se ao mundo.

Talvez, também por isso, nos tenhamos distanciado do verbo fotografar e não falte quem classifique a nossa era como a da pós-fotografia. Mas naqueles que ativam este verbo com autenticidade encontramos um apelo que vai na direção contrária do imediatismo e da exposição: fotografar é, de forma radical, uma viagem interior; um ensaio contra a cegueira dos modos rotineiros do ver; uma tomada de consciência da vulnerabilidade do olhar e do que é olhado; uma ética (e, consequentemente, uma estética, um modo de vida, uma solidão, um amor, um destino). (…)

Eu adoro este homem e a forma singela e límpida como escreve as suas ideias, sempre certeiras. Tolentino analisa esta actual vida ilustrada por fotos e compara-a à verdadeira arte fotográfica, que nos toca, nos revela, longe do imediatismo e da simplificação.

Não diabolizo nenhuma rede social e aprecio – cada vez mais, diga-se – o IG. Mas, talvez fruto do meu mergulho em profundidade noites e noites a fio, sinto claramente a intoxicação que o Instagram e as suas belas imagens me provocam. Pela comparação e pelo desejo de gratificação que um mero ❤ depois de clicar 2x nos dá.

Vamos lá, ia reprovando em fotografia (com uma lente cujo diafragma não fechava e queimava todas as películas). Sou uma nódoa a fotografar, apesar de ter olho para a composição. Mas estou-me nas tintas para a técnica e aprecio todos os automatismos. Esse é o primeiro ponto – saio logo a perder pela falta de qualificação fotográfica. Adiante.

Não sou uma mãe fixe. Nem sequer sou fixe. Ou cool. Ou hot, for what matters. Como massa com legumes em pratos que já mereciam reforma, apesar dos esforços traduzidos por reforços da minha mãe. Raramente como fora de casa. Os meus putos andam em cuecas e fitas ninja na cabeça pela casa (talvez sejam mais fixes que a mãe), mas a minha conta é aberta e não os publico publicamente. Ando pelo bairro cheio de cocó na calçada sem árvores e pejado de prédios que precisavam de uma reabilitação. Raramente saio do eixo casa-escola-trabalho-escola-casa e tenho uma vida desinteressante para publicar.
E sinto-me uma nódoa ao lado das fabulosas mães de 3, ou 4, ou 5, ou 6 filhos, que amamentam em banheiras redondas, ensinam em casa em espaços magnificamente decorados, todos em madeira e chão pintado de branco, com quadros de pinturas Waldorf. Que exibem fabulosas madeixas californianas em fotos profissionais que têm sempre o mesmo filtro meio vintage, com roupas bohochapéus de palha. Que viajam que se fartam e apregoam o estado de graça em que vivem apesar – e graças à – numerosa prole. Que fazem ovos da Páscoa tingidos com plantas e recheados com cera de abelha que os transforma em velas pascais, ou que vão surfar numa praia paradisíaca (eu que demorei uns largos segundos a vir à tona este Verão) (mas não cheguei a ver o filme da minha vida a desfilar, vá).

A sério.

Se eu quiser ver blogues com produções fotográficas familiares, eu sei onde os vou procurar, mas os lifestylers ou influencers vêm ter à minha conta IG, quer queira quer não. É o algoritmo, burra!

São os amigos, as interacções, os cliques, os cookies. E é ver desfilar aquelas vidas fantásticas que me dão uma brutal sensação de desajustamento e insatisfação, como se estivesse não só a falhar redondamente, como se algo me passasse completamente ao lado – e eu nem sequer tenho hipóteses de lá chegar #youwish

A comparação não é, mas a inveja sim, é um pecado capital que nos corrói por dentro. Alimentadinho pelas gratificações que o nosso cérebro produz por cada interacção connosco, que almejamos crescer e ganhar influência, destacarmo-nos nesta torrente de wannabes. Queremos mesmo? É isso que nos valida como pessoas? O nº de seguidores? O nº de ❤ numa imagem? #tiroselfieslogoexisto?

Sou um poço de conflitos internos e não vivo no estado de Graça do (padre) Tolentino, que tem uma boa distância destas tentações telefónicas. Mas ter estado longe das apps durante largos dias fez-me aproveitar bem mais a vida, aquela que quero viver e da qual aqui falo, uma vida simples focada no essencial e não desperdiçada com distracções.

E sobretudo perceber que a vida a sério, não a vida vivida por interposta pessoa através de fotos fabulosas publicadas numa rede social, é caótica, barulhenta, poluída, frustrante, confusa, stressante, mas também pontuada por momentos mágicos, reflexões, epifanias, repletos de amor, mimos, gargalhadas, beijos e abraços. É tudo, o bom e o mau, não é apenas uma superfície lisa na qual o rugoso 3D não encaixa.

Não tenho sugestões, tenho contradições. Mas acho que vou deixar de seguir estes lifestyles que menorizam a percepção que tenho da minha própria vida – uma vida de privilégio, caramba! – para fazer as pazes com a minha realidade.

Alinham?

Esta temática não é uma novidade (andamos sempre em torno das nossas dificuldades, correcto?). Se interessar há mais sobre a imperfeição, sobre o mito das mães perfeitas, sobre as ficções encenadas no IG, sobre as redes sociais… é só procurar por aqui, pelo Facebook ou Pinterest. Até já!

 

Ficções (um artigo invejoso)

Ficções é o título de um dos meus livros favoritos, conjunto de contos do Jorge Luís Borges, mas isso não vem aqui para o caso.

Ficções foi o melhor título que eu encontrei para um artigo sobre a frustração que sentimos ao ver as redes sociais e a vida dos outros. Neste caso particular, a vida de uma cozinheira sino francesa mãe de 6 + 2 enteados + resmas e resmas de cães, a viver no sudoeste francês, na zona do Médoc (onde há um vinho bestial).

 

A sério. Se não a conhecem, não se dêem ao trabalho – ficam com vontade de cortar os pulsos. Não há nada que não seja perfeito: Continuar lendo Ficções (um artigo invejoso)

Das contradições (e das pequenas coisas)

Na página de Facebook da Mãegazine acabei de partilhar uma imagem de uma página intitulada Becoming Unbusy. A tirada é esta e diz que no fim da linha não nos lamentaremos do tempo a mais despendido com os filhos.

A primeira contradição é que se há quem fique contente de despachar filhos para avós sou eu e já estou a esfregar as mãos agora com a Páscoa (eheh). E depois fica-me muito bem partilhar uma imagem destas… Mas essa contradição é humana e até tem graça. E eu sou o perfeito peixe que mordeu o isco.

Como assim? Continuar lendo Das contradições (e das pequenas coisas)

Carta ao meu pai

Querido pai,

Falta pouco para nos conhecermos: pode parecer uma eternidade, mas uma gravidez passa sempre depressa.

Enquanto contas os dias sei que não estás tão descansado como queres transparecer.
Passam-te milhares de coisas pela cabeça. E se as coisas não correm bem? E se eu não gostar do meu bebé? E se ele não gostar de mim? E se eu não souber educar bem? E se ninguém o convidar para as festas? E se a escola correr mal? E se…

Sabes que nem tu nem ninguém tem as respostas para esse e se… porque o caminho faz-se a caminhar e só quando as coisas acontecem é que podes responder com propriedade.

Mas há uma coisa que eu sei e essa coisa não está em nenhum motor de busca nem em nenhum livro: Continuar lendo Carta ao meu pai