Uma certa nostalgia (e uma certa distracção)

A primeira vez que ouvi esta música, repito, a primeira vez, chorei baba e ranho. Chorei litradas de quentes e sentidas lágrimas. Nem vou ouvir agora para não ficar de novo no lastimável estado.

A canção é francesa (imagino que não tenha o mesmo efeito sobre quem não entende a língua) e chama-se En l’an 2001. No ano 2001, quando eu tiver 20 anos, diz o texto.

A canção é dos anos oitenta e é escrita sob duas perspectivas.

Por um lado a perspectiva de uma criança que diz que quando tiver 20 anos vai ser o ano 2001 e vai fazer imensas coisas, viver imensas aventuras (e a população mundial na época era de 3 mil milhões).

E há uma outra voz, do pai, que diz que daqui a 20 anos será velho, com os cabelos brancos, e que agora o seu filho está a aprender a andar e dá-lhe a mão. E alerta-o que aos 20 anos vai querer queimar a sua vida e vivê-la ao máximo sem saber de mais nada. E que já fez exactamente isso, aos 20 anos.

Choro baba e ranho por três motivos: pela criança que fui, pela adulta que sou, com filhos pequenos, e pela adulta que serei quando eles tiverem 20 anos.

Agora somos 7 mil milhões no planeta. Em 2001 tinha 22 anos. Apesar de só a ter ouvido há relativamente pouco tempo, esta canção evoca o universo musical dos anos 80, os anos da minha infância. É como se já a conhecesse, mesmo sem nunca a ter ouvido.

Vejo pelos meus filhos que o seu sonho é crescer, ser crescido. Imaginam mil aventuras, o mundo é fantástico e encerra milhares de possibilidades.

Eu já passei os meus 20 anos e serei velha daqui a 20 anos, provavelmente com cabelos brancos (ou talvez a genética mos poupe). Ouço esta canção como quem olha para trás, para 2001, para 1981, e para a frente, para 2035. E aperta-se-me o coração.

Porque as possibilidades, a esperança não é a mesma. Ou talvez seja uma perspectiva mais desencantada de quem já tem 36.

Lembrei-me desta nostálgica canção ao ver o mais crescido a brincar com um smartphone. Pessoalmente evito a todo o custo dar-lhe um gadget electrónico para as mãos – vai ter a vida toda para o fazer, vou adiar o mais possível esse momento fatídico. Como só tenho um smartphone que funciona muito mal e não tem jogos, isso não é propriamente complicado. Mas ele pegou no velho (que funciona igualmente mal e por isso não tem cartão) e ligou-o e não descansou enquanto não se entreteve a brincar com uma demonstração de tetris. Ficou siderado, hipnotizado pelo pequeno ecrã.

Aliciei-o com o barco de Playmobil com motor para levar para a banheira, muito mais giro, mas ele garantiu-me que o telefone era muitíssimo mais interessante que os brinquedos.

Fiquei a pensar. Expliquei-lhe que há muitos adultos fascinados com telemóveis, mas que essas pessoas têm uma doença – a da distracção, como diz a americana Rachel Macy Stafford.

E pensei como nós, adultos, pais e mães, modelamos com aquilo que fazemos. Como as nossas acções contam infinitamente mais do que o discurso. E olhei para nós, como somos viciados no ecrã do computador (os outros são inexistentes cá em casa).

Porque isto de internet e artigos giros atrás de coisas inusitadas e outras muito interessantes que tampouco queremos perder está feito de forma a aqui passarmos a vida. Aquela mesma vida que acontece quando saímos e damos as mãos e as sujamos com o gelado derretido, que sujou igualmente a roupa. Aquela que acontece debaixo do sol, ou das nuvens, ou da chuva, ou do tecto, ou da tenda montada dentro do seu quarto.

E assim, distraídos, quase sem darmos por ela, já temos cabelos brancos e eles têm 20 anos. E nós gastámos aqueles melhores anos, como diz a Maria, distraídos com coisas giríssimas que não interessam absolutamente nada. Coisas vazias, ocas, insufladas e vistosas.

Pode parecer paradoxal – se estás tão preocupada em não andar distraída, para que raio criaste tu um blogue?- perguntam, legitimamente, vocês. E eu respondo que este exercício me obriga a fazer uma cada vez mais criteriosa e incisiva gestão do meu (do nosso) tempo e a focalizar-me no que realmente interessa.

Porque 20 anos passam a voar e eu quero tirar o melhor partido da vida. E do meu tempo de ecrã .

ilustração de Luis San Vicente

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