Da mudança

Não é novidade nenhuma: se há algo que caracteriza a vida, esse algo é a mudança. Mas partindo desta evidência, há muitas nuances e subtilezas.

Há mudanças discretas, subtis, caladas, mínimas, internas, íntimas.

Há mudanças sonoras, estrondosas, inesperadas, súbitas, chocantes.

Uma e outra podem provocar sismos internos (ou externos). E ambas podem coincidir, dependendo da perspectiva.

hiroshige
Mar com tempestade, de Ando Hiroshige (o meu artista favorito de *sempre*)

  • Há mudanças que se fazem pouco a pouco, a nível celular, um dia após o outro. E um belo dia sabe-se o diagnóstico. Ou há mudanças na nossa cabeça e no nosso coração, que vão maturando, pela calada, até chegar o dia em que as damos a conhecer porque chegou a hora de subirem à superfície.

Essas mudanças podem ser subtis a um certo nível, mas podem ser bombásticas a outro. Se soubermos da sua aproximação, podemos tentar preparar-nos, defender-nos do que aí vem. Podemos tentar reverter a mudança em curso e que não nos interessa para nada. Se esse não é o caso, a bomba explode-nos na mão, ou na cara, e ficamos desfeitos. Como ir buscar os nossos pedaços e colá-los novamente? Como ultrapassar este sismo que, aparentemente, não se fez anunciar?

 

  • Há mudanças no local do trabalho, nas caras que saem, ou entram. Há alturas em que, paulatinamente, há pequenas alterações e, de repente, apercebemo-nos que afinal tal serviço está total e radicalmente diferente, e já não conhecemos quase ninguém.

 

  • Há mudanças que vemos ao espelho, ou nas fotografias, ou nas caras dos amigos, onde vemos uma série de rugas que desconhecíamos e que de imediato nos remetem para a passagem do tempo no nosso próprio corpo, que teimamos em negar. Essas mudanças de fora, diárias, subtis, tomam a forma de grande mudança quando acontece esse encontro com o outro, já que o encontro com o espelho costuma ser todos os dias… E cai-nos a ficha e percebemos que não são apenas os miúdos que estão crescidos e muitíssimo mais altos depois das férias de Verão. Somos nós que acompanhamos também a marcha do tempo. E isso não é fácil.

E olhamos para os miúdos de vintes e achamos isso mesmo, que são miúdos, e que de certa forma já não falamos a mesma linguagem, nós que nascemos antes de 1985, o ano em que nasceu a internet. Como se pode ler aqui, somos a última geração bilingue, que conheceu uma infância longe de ecrãs, a brincar na rua e a esfolar joelhos mas sem jogos de computador a seguir. Que esperava vários minutos para rebobinar a cassete, ou o VHS, longe da imediatez dos dias de hoje. Que conhecia o vestíbulo, o hiato de tempo entre uma coisa e outra, esse tempo tão necessário e tão desaparecido. Que ficava sentado numa cadeira colocada ao lado do telefone fixo, que discávamos e que deixávamos o dedo um pouco tempo mais no último algarismo, com esperança que isso nos deixasse furar a torrente de chamadas para ganharmos não sei o quê que ofereciam na rádio. Essa antecâmara de que aqui se fala e que é hoje uma raridade (infelizmente na minha perspectiva).

 

  • Há mudanças na sociedade, que se afasta cada vez mais da linguagem e da reflexão, para se colar às imagens, à rapidez, a vertigem do parecer. Já não se trata do ser ou ter. Trata-se do ser ou parecer. Não interessa se tens efectivamente o nível de vida que te permite ter x ou y. Se tens tantos seguidores nesta ou naquela rede social, as marcas dão-te as coisas e parece que tens uma vida incrível, ainda que possas ter dificuldades para pagar as contas a sério, ou vivas numa mentira interna que alimentas, para não caíres do pedestal que tu próprio criaste. Parece que estás a vingar na vida, que estás na crista da onda, que te realizas graças ao aplauso (ou gostos) da crescente massa de gente que te segue virtualmente. Mas e se de repente essas pessoas te falham? E quando as novidades que trazes para a tua vida/espectáculo (Big Brother era para meninos!) deixarem de interessar os K ou M seguidores? E quando fores suplantado por alguém que seja mais fluente nesta novilíngua da vida virtual que, também ela, está em constante (e vertiginosa!!!) mudança? Hoje é uma rede, amanhã é outra. Hoje estás nesta fase da vida, amanhã naquela, e até quando poderás fazer de ti um produto vendável?

 

  • Há mudanças de públicos, ontem eram uns, com certas características e poder de compra, hoje são outros, com outras características e, globalmente, sem poder de compra. Como conseguir renovar os públicos? Como atrair as pessoas a determinadas actividades, eventos, publicações, o que se queira? Como lidar com o desinvestimento nas áreas artísticas, culturais, informativas ou mesmo desportivas (excepção feita ao omnipresente futebol)? Como ir atrás do que se está a ir embora? Como conquistar as pessoas sem fazer cedências à mediocridade, à vulgaridade, à banalidade, à superficialidade?

 

  • Há mudanças em nós, na maneira de ver as coisas. Temos determinada relação com quem nos damos, mas as coisas mudam também. Estamos mais maduros, ou cépticos, ou disponíveis, ou indisponíveis. E apesar da rotina, ou dos ritmos diários, descobrimos novidades em nós, na forma de viver as relações, a vida de casal, a vida familiar, a vida profissional. Essas mudanças às vezes são boas surpresas, outras vezes nem por isso. A aceitação ajuda a não carregarmos o peso da culpa, porque cada dia é um novo começo e podemos tentar mudar para melhor, que o cérebro também é plástico e com a prática fica melhor a executar certas funções, como reacções mais gentis e menos stressadas.

 

  • Há mudanças neste site, que é cada vez mais um espaço de reflexão e menos um apresentar de putativas soluções para problemáticas familiares. E há também a evidência de que este não é um site para meninos, é para adultos.

melro

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