Das inseguranças

Há dias em que sentimos que dominamos o mundo. Olhamos para a vida com confiança, ímpeto, garra. Podemos até ter um olhar sobranceiro sobre certos assuntos, coisas ou pessoas, porque estamos na crista da onda. Pode ser por estarmos apaixonados, ou por determinado aspecto da nossa vida estar a correr particularmente bem.

E há dias em que – sobretudo no exercício da comparação, mas não só – nos sentimos um cocó. Um falhanço, um borrão, um engano. Nesses dias, talvez por maior cansaço, ou porque fizemos algo que não nos corresponde (ou queremos que nos corresponda) ou, pura e simplesmente, porque a nossa forma de ser e de nos manifestarmos não vai de encontro ao gosto da maioria, ou mesmo de uma minoria à qual gostaríamos de agradar.

Pasme-se, é assim a vida – nunca, NUNCA cairemos nas boas graças de todos. A experiência humana é tão vasta como os mais de 7 mil milhões de seres humanos que povoam este pedaço de terra que orbita no sistema solar. Se disso houvesse dúvida, basta assistir, ainda que a um pouco que seja, a este documentário no qual cidadãos anónimos partilham um pouco, uma nesga da sua vida. É mesmo incrível.

Há uns tempos li um livro, aos bocadinhos, como se consegue ler quando se tem um bebé muito bebé em mãos e, sobretudo, à noite. Talvez por isso a ideia que tenho do livro é fragmentária, um bocado desconexa e sem grande fio condutor. Não é, de todo, grande literatura, mas cumpriu a sua função de me aliviar e relativizar o extremo cansaço em que me encontrava. O livro chama-se Simply Tuesday e é de uma bloguista americana chamada Emily P. Freeman. O livro tem um pendor teológico (cristão) muito forte, mas tem umas ideias giras, independentemente da (des)crença de cada um.

A ideia base do livro é que Small is the new free, ou seja, assumirmos a nossa pequenez é uma libertação. O discurso é intimista e ela expõe-se com uma grande franqueza, as fragilidades e vulnerabilidades são todas assumidas. É bom percebermos que o que passa pela cabeça dos outros afinal não difere assim tanto do que passa na nossa. Mas podemos dar a entender que não.

Quem se apresenta com uma postura confiante é percepcionado como tal e, em boa medida, sente-se como tal. Mas quanto mais se dá nas vistas, dessa forma confiante, mais se ganha anticorpos dos outros, que desconfiam de tanta (aparente) confiança (e se há coisa em que as mulheres podem ser tramadas é na competição).
E como diz a bloguista/autora do livro, não podemos conectarmo-nos a alguém se competimos com ela.
É impossível manter a lógica de competição quando se quebra o gelo e se avança na direcção do outro com simpatia, empatia, uma atitude descontraída e calorosa – aí conquista-se o outro, que passa de rival a aliado, sendo até capaz de nos elogiar na área com a qual entra em competição. Fica uma competitividade saudável, fraterna, solidária por parte de quem sabe.

A uma certa altura, escreve « Por vezes sinto que estou a atravessar um campo de batalha e o meu inimigo é um exército de números. Quantas pessoas apareceram naquele grupo que iniciámos? Quantas unidades daquele produto foram vendidas? Quantas partilhas tive naquela foto? Quanto dinheiro ganhei na última semana, mês, ano? (…) Eu sei que estes números não me definem. (…) Tentei lutar com esforço contra os números. Nunca funciona. »

Quem não se revê nisto?
Já o aviador dizia ao Principezinho que as pessoas crescidas só se preocupavam com números. Mas se antes eram de dinheiro, nos dias que correm esses nºs correspondem muitas vezes a likes – ao comentário, à foto, ao vídeo, às partilhas do que publicámos. É uma validação externa como qualquer outra, como um elogio, mas com a vantagem de ser quantificável, mensurável. E não, esses números não nos definem, mas por vezes sentimos que sim.

Ainda voltando atrás, a autora fala de dois tipos de pequenez: o com carácter pejorativo (ser-se mesquinho, egoísta, humilhante) ou o positivo, quando nos sentimos pequenos perante certos factos da vida (nascimento de bebé, acto de heroísmo) ou elementos (ver o mar, montanha, percebermos a efectiva dimensão deste planeta no contexto do Universo).
Ela sugere começarmos por celebrar a nossa pequenez – nos sucessos e falhanços, na inspiração ou no desapontamento, na excitação ou no tédio, na confiança ou na insegurança – às terças feiras, para ela o mais banal, corriqueiro, ordinário dos dias da semana, daí a ideia de #simplytuesday (se pesquisarem isto encontrarão resmas de momentos banalíssimos que foram deliberadamente celebrados). A ideia do livro é que a vida, significativa, estruturante, se desenrola não no escuro ou debaixo dos holofotes, mas à média luz, no mundano, no banal, no dia-a-dia.

Também defende a ideia de que a alma humana não foi feita para a fama. Quantas vezes associamos o brilho do showbiz à felicidade! Que falácia! Mas o pior é que o showbiz não tem forçosamente de ser o programa x na tv. Numa era da imagem e do digital e da imediatez e da ligação constante à internet, o showbiz é praticamente tudo – até uma conta de instagram que admiramos particularmente. E aí vem a comparação. E a frustração. E a sensação de desajustamento nosso. E a insegurança.

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A insatisfação e insegurança é humana e transversal, mas foquemo-nos nas nossas prioridades, nas nossas relações, no nosso trabalho. A bloguista dá a imagem de quem toma conta de uma parcela de uma piscina de um gigantesco aquaparque densamente ocupado – se tentarmos olhar para toda a dimensão da piscina, corremos graves riscos de deixar escapar um silencioso afogamento. A cada um de nós é dada uma pequena parcela de piscina para vigiar. Concentremo-nos nela, com empenho, brio e sentido de responsabilidade. Isso ajuda a dissipar boa parte das inseguranças, senão quase todas.

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