Carta ao meu pai

Querido pai,

Falta pouco para nos conhecermos: pode parecer uma eternidade, mas uma gravidez passa sempre depressa.

Enquanto contas os dias sei que não estás tão descansado como queres transparecer.
Passam-te milhares de coisas pela cabeça. E se as coisas não correm bem? E se eu não gostar do meu bebé? E se ele não gostar de mim? E se eu não souber educar bem? E se ninguém o convidar para as festas? E se a escola correr mal? E se…

Sabes que nem tu nem ninguém tem as respostas para esse e se… porque o caminho faz-se a caminhar e só quando as coisas acontecem é que podes responder com propriedade.

Mas há uma coisa que eu sei e essa coisa não está em nenhum motor de busca nem em nenhum livro: tu e eu vamos ter uma relação única e quando eu nascer vais ver que só podia ser assim e de nenhuma outra forma. Vais olhar para os meus olhos acinzentados e vais reconhecer neles uma luz única e brilhante, a minha luz interna.

Essa luz precisa de ser bem cuidada. Por muito que eu traga comigo, estou vulnerável e dependente. Essa fragilidade assusta, bem sei. Sobretudo quando tenho dores de barriga ou frio ou fome ou estou cansado e desato num berreiro ensurdecedor. Nessas alturas vais ver-me como um inimigo, mas nunca te esqueças que sou só o teu bebé que precisa que descodifiques a minha comunicação ainda sem palavras.

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Isso vai ser daqui a pouco tempo, até lá tens de saber gerir as tuas emoções e todas as expectativas internas e externas e isso não é nada fácil.

A mãe é o foco de todas as atenções. Chamam-lhe um estado de graça mas a maior parte das vezes não tem assim tanta graça como isso.

Ela pode não saber explicar bem, ou da melhor forma, mas um pé na costela dói bastante. O pé é o meu e a costela é a dela. Quando finalmente consegue descansar, e olha que ela não tem grandes posições para dormir – é ou para a esquerda ou para a direita – eu começo a mexer-me, porque quando ela anda eu adormeço, embalado. E a azia e refluxo?
O que queres? O tronco está cheio de órgãos e para eu crescer o resto fica um bocado apertado. Já nem te falo no peso na bexiga e o efeito do suplemento de ferro nos intestinos…

Ela fica um bocado refilona e às vezes chora. Para além de partilhar todas as tuas ansiedades, ela tem-me dentro de si. Somos dois num só e as hormonas que circulam deixam-na mais sensível. E olha que essas hormonas duram até umas semanas depois de eu nascer… e depois fica um vazio um bocado complicado de ultrapassar. Mas tudo passa.

Os amigos e a família sabem que isto é assim e esperam que sejas o porto seguro, que estejas ali sempre de pedra e cal. Essa pressão por vezes é-te insuportável, porque sentes que não é levada em conta a tua própria insegurança. Tens de ser uma pedra mas sentes-te areia.

Mas sabes que mais? A areia vem da pedra e a areia pode ficar bem sólida. Essa solidez é o que me vai permitir crescer feliz e saudável, independentemente dos imprevistos da vida.

As relações humanas são difíceis e num casal as duas pessoas oscilam entre ressentimento e aceitação. As pequenas coisas contribuem para uma erosão que pode ser fatal. O ressentimento acumulado destrói tudo, porque deixamos de ver a luz do outro, aquela que nos fez apaixonar por ele, para vermos apenas os seus defeitos. Somos cegos aos nossos próprios defeitos, mas as nossas idiossincrasias também podem ser insuportáveis… Por isso a aceitação é tão importante, mas uma aceitação profunda, sem cobranças. Não estou aqui a dizer que devas aceitar tudo, atenção! Mas reflecte e pensa com o coração generoso.

Nestes dias que faltam, sê querido com a mãe. Mesmo que não partilhes com ela (nem com ninguém) os teus medos, dá-lhe um abraço, dêem as mãos e aceita a possibilidade de não irem muito além disso, que a fase que ela atravessa não é a mais sexy da sua vida. Não te preocupes que ela regressará ao que era, ainda que leve outra aparente eternidade.

Juntem as respectivas areias e com ela construam um castelo bem acolhedor para me receber. Não se esqueçam de acrescentar regularmente água para moldar bem as ameias. Essa água chama-se amor.

Até já ❤

O teu filho

melro

No Mãegazine abordam-se estas e outras questões mais ou menos profundas que podes descobrir seguindo por mail, Facebook ou Pinterest 🙂

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