Para um debate sobre a escola pública

debate mgzPreâmbulo

Por estes dias a escola pública em Portugal tem estado na mira da comunicação social e dos partidos em minoria parlamentar. O ministro do actual governo de coligação de esquerda tem dado (claríssimos!) sinais de que quer alterar o estado do ensino em Portugal. Oxalá que para (muito) melhor!

Sou forte defensora de um ensino de qualidade, universal e gratuito. A República assenta em determinados valores, e a educação é um dos pilares de uma nação. Merece por isso o maior respeito.

Muitos são os entendidos que falam da obsolescência do método de ensino, que se baseia no modelo da época da revolução industrial. Este vídeo, uma das conhecidíssimas apresentações TED, fala sobre isso de forma transparente.

Os tempos são efectivamente outros. A cada ano, a humanidade produz mais informação do que tudo compilado até à data ou algo do género. A informação é partilhada de forma imediata, graças à tecnologia, ao digital, à internet, às aplicações, etc.

A nossa interacção com a tecnologia, sobretudo quando estamos em fase de formação (leia-se quando somos crianças), vai modelar a organização do nosso pensamento, do nosso cérebro. É como se a arquitectura do cérebro de uma criança do início século XX e do início do século XXI (num país desenvolvido…) fosse radicalmente diferente. Ganham-se competências, perdem-se outras. Grosso modo, a ideia que tenho é que se ganha em multitask e se perde em concentração (neurologistas/pediatras/especialistas desmintam-me se for o caso, pf!).

Por prudência, por intuição e por escolha racional, opto pela versão old school, por isso acordei com o mais crescido que jogava computador 30’/semana, num dia preciso. Tenho a convicção que num instante qualquer miúdo recupera o tempo pedido a manusear a tecnologia. Esse contacto será inevitável, mas se tenho a possibilidade de controlar esse contacto numa fase inicial, faço-o sem problemas nem culpas (a isso se chama educar, assumir as opções!).

A escola deve adaptar-se às mudanças, mas deve, acima de tudo, adaptar-se às efectivas necessidades físicas e psíquicas das crianças, de acordo com a fase que atravessam. É nesse sentido que aqui partilho uma reflexão escrita:


Vários são os especialistas que se debruçam em dois dos maiores problemas que podemos encontrar nas escolas públicas portuguesas (e um pouco por todo o mundo ocidental, diria eu…) – indisciplina e desmotivação.

Esclareço antecipadamente que não sou da área das ciências da educação, mas estou atenta ao que vai sendo publicado na imprensa, e que vou aliás divulgando na página de Facebook da Mãegazine. Reuni diversas ideias que fui lendo em vários artigos, que estão devidamente identificados.

Quais são, então, algumas das causas da indisciplina e desmotivação?

Diminuição da inteligência sensorial e motora.

O ser humano, entre os 5 e os 8 anos de idade, vive o seu pico de dispêndio de energia. As crianças estão ‘programadas’ para brincar e é na brincadeira que desenvolvem capacidades sociais, de gestão de conflito, de negociação, etc, que serão úteis – e essenciais – em toda a sua vida. Há quem defenda que os horários lectivos impostos são demasiado extensos e que não permitem que a criança desenvolva a sua ‘literacia motora’, agravada pela falta de equipamentos disponíveis de qualidade (parques infantis) e de oportunidades proporcionadas pelos pais e pela escola. Intervalos de 15 minutos são curtos e pouco eficazes para a essencial libertação e boa canalização da energia vital.

Se o corpo não tem o dispêndio de energia que necessita, essa energia sai de outra forma – incapacidade da criança em manter-se quieta e concentrada. O ‘mau comportamento’, o balançar na cadeira, etc., são sinais de que o corpo tem de se mexer para o cérebro ficar alerta. Quando lhes é pedido que se mantenham quietas, o cérebro entra em modo ‘sono’, reforçando o ciclo vicioso de falta de capacidade de concentração /indisciplina.

Terapeutas pediátricos dizem que o desenvolvimento da inteligência corporal está ligado ao desenvolvimento do equilíbrio, cujas células se localizam na região do ouvido. Estudos apontam para uma drástica redução do correcto desenvolvimento do sentido do equilíbrio, por falta de treino e desenvolvimento físico das crianças. A solução passa por isso por uma forte aposta no movimento e exercício. Pesquisas apontam igualmente que esse exercício tem de ser continuado no tempo, não bastando um treino ou dois semanais de um qualquer desporto: deve ser uma prática diária, não forçosamente estruturada (leia-se movimento livre e não supervisionado ou orientado).

O sedentarismo infantil é agravado por formas de entretenimento passivas, frente a um ecrã ou consola de jogos, certamente muito úteis para manter as crianças caladas ou calmas em casa, mas altamente nocivas se não forem oferecidas com moderação. A realidade bidimensional dos desenhos animados ou jogos de computador corre o risco de se sobrepor ao vital confronto e exploração do mundo tridimensional, o ‘mundo a sério’, onde o ser humano treina as competências para enfrentar a vida.

Falta de contacto com a natureza

É conhecida a capacidade ‘terapêutica’ do contacto com o meio natural não alterado pelo Homem. As famílias em meios urbanos têm muita dificuldade em proporcionar este tipo de vivências aos seus filhos, essencial para o seu pleno desenvolvimento.

Portugal tem um clima privilegiado, com muitas horas de exposição solar. A chuva, pontual e incontornável, não pode ser impeditiva de saídas para o exterior. As anedóticas histórias de crianças que afirmam que as galinhas têm a pele revestida de plástico reflectem bem a ausência de contacto reiterado com meios não urbanos.

Escassez de uma cultura de escola

A escola tem, pelos mais diversos motivos (e com o gradual e consistente desinvestimento por parte do estado), perdido a sua posição de elemento chave de uma sociedade. Aparentemente o mesmo não sucede na Finlândia, país reconhecidamente bem sucedido no seu sistema de ensino, onde a carreira de professor é alegadamente mais disputada e considerada que a de médico.

Independentemente das directrizes estatais, cada uma das escolas e agrupamentos escolares pode reivindicar a promoção de determinados valores, como a pontualidade, asseio, nível aceitável de ruído, respeito pelo próximo (que exclui o insulto ou ofensa), cordialidade. Estes valores devem, naturalmente, ser veiculados nas casas de cada criança, mas a escola tem de definir os seus próprios limites, que devem ser claros e do conhecimento de todos, reforçando os valores dados pela família.

 

Como o artigo já vai extenso, deixo as possíveis sugestões para outras núpcias 😉

PS – comentem! partilhem! envolvam-se!

melro
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5 comentários sobre “Para um debate sobre a escola pública

  1. Concordo com tudo. Cá em casa temos dois adultos que adoram TV, um que adora tablets e gadgets. Temos uma mãe que cresceu a aprender com a TV, por mais que fosse estimulada pela própria mãe a ir para a rua brincar. Uma mãe que é naturalmente sedentária. Mas que na idade adulta descobriu o poder da natureza, de estar fora de 4 paredes. E que quer MUITO que o filho brinque na rua, e não ligue nenhuma as tecnologias. Cá em casa achamos que dá muito trabalho entreter uma criança de 21 meses sem tvs e sem gadgets. Mas nem nos passa pela cabeça facilitarmos a nossa vida usando a TV como babysitter. Claro que ele irá aderir à tudo o que são gadgets, até porque estamos a viver em cidade e não há muitas opções para o deixar livre pela rua.. Mas qto mais tarde isso acontecer melhor. Não seremos nós a estimular essas vivências. É com um “orgulho” secreto que digo que o meu filho aos 21 meses não sabe mexer num tablet. Há muito que sabem ir ao YouTube escolher musicas e o que querem ver, mas eu fico contente por ele ter essa “ignorância”. Quanto às escolas.. Nem sei bem o que pensar qdo o meu filho aos 8 meses trouxe um relatório de avaliação do ano lectivo, da creche.. What???? A sério?

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    1. 🙂

      O relatório de avaliação das competências (motoras, etc) que foi adquirindo, presumo. Não creio que seja sinal de alarme, é para os pais estarem a par da evolução que o filho foi tendo, não vejo mal nisso.

      Em relação ao contacto com a natureza, confronto-me com uma grande dificuldade em proporcionar estas vivências aos meus filhos. Penso que não estou só (longe disso!). Por isso a escola pode ter um papel FUNDAMENTAL a proporcionar este grau de actividade física e contacto com a possível natureza, com um forte investimento em equipamentos e jardins (já agora para crianças e não para cães defecarem…)
      abraço

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      1. O relatório de avaliação era o mesmo que usam para as crianças de 3 anos, pelo que cerca de 90% dos itens diziam “Não observável” 🙂

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      2. Mas não estou nada preocupada. Sei que há coisas naquela creche com as quais não concordo, mas acima de tudo são muito atenciosas para as crianças, há mimo, colinho, atenção com fartura 🙂 tb fazem atividades giras (embora demasiado orientadas à escolaridade, na minha opinião..), o espaço exterior é que me custa.. Só tem um terraço que só usam quando não está frio/vento/demasiado calor.. Mas fica pertinho de casa, por isso não perdemos tempo em viagens, e assim que sai de lá vai sempre ao parquinho apanhar um pouco de ar e desanuviar. Não é a escola dos meus sonhos, e fica lá muito mais tempo do que eu acharia adequado, mas é a vida que temos.. Fazemos o melhor que conseguimos.

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