#familias_como_as_nossas

Por onde começar? Pelos refugiados sírios.

Estamos a assistir a um trágico período da história da humanidade. Milhares e milhares de pessoas fogem de sua casa, do seu país, enfrentam a morte porque deixaram de a temer – se ficam para trás provavelmente arriscam mais a sua vida do que se abraçarem a incógnita que está pela frente.

As imagens são desoladoras e desassossegam-nos. A nós que temos acesso à internet, que vivemos com algum, ainda que mais ou menos moderado, conforto. Que somos ricos quando comparados com a esmagadora maioria dos 7 mil milhões dos habitantes deste planeta. Ricos? Alto aí, pensam vocês. E com razão – não estamos entre os 1%, 0,1% e ainda menos nos 0,01% (esses são obscenamente ricos, cada vez mais…). Mas a nossa falta de riqueza são luxos incríveis por outras paragens, noutra escala. Basta relativizar as coisas.

E é disso que se trata. Olhar de outra forma, colocar as nossas – válidas, honestas e reais – dificuldades/problemas/chatices em perspectiva.

O Nuno Félix e o Pedro Policarpo têm 4 filhos cada um. Pater familias nas suas casas, sabem bem o que é o caos de uma família numerosa, ruidosa, dispendiosa. Têm problemas e chatices e dificuldades como vocês ou eu.

Mas houve um clique naquelas duas alminhas, um clique que representa a passagem da intenção para a acção. Do que todos pensamos – ai desgraçados, como é possível viver assim, suportar isto, ainda mais com crianças! como é possível tanto sofrimento? pudesse eu até acolhia uma criança que ficou órfã em casa, que pesadelo… – passaram para o – o que é que eu vou fazer de forma concreta?

As possibilidades de ajudar concretamente são variadas e as mais fáceis talvez sejam as económicas. Fazemos uma transferência para o NIB da organização não governamental (ONG) X em quem confiamos e esperamos que faça a diferença. Ou compramos o artigo Y cuja receita reverte para outra ONG. Ou ajudamos na tradução de documentação, ou ao telefone. Ou enviamos roupa e material numa caravana solidária. Ou juntamo-nos à recentemente criada PAR – Plataforma de Ajuda aos Refugiados.

familiascomoasnossas

O Nuno e o Pedro optaram pela versão hardcore. Tão mais hardcore que nem sequer estão espaldados por qualquer tipo de organização empresarial, com mecenas, etc. É uma iniciativa assumida e deliberadamente individual, de uma família para outra família, de um português para um sírio.
O Nuno e o Pedro são dois amigos que decidiram arregaçar as mangas, vão pegar no seu respectivo monovolume de 7 lugares, atravessar a Europa até chegar à Croácia ou Hungria. Aí entrarão em contacto com organizações que lidam com os refugiados para tentar acolher uma família. À partida – assim esperam – regressam com o carro cheio de gente, que tencionam acolher nas suas próprias casas. Leram bem. Nas suas casas de 6 – pai, mãe, 4 filhos (e não, não têm palacetes. têm um T3 de 90m2).

Pode (?) parecer simples, mas não é. As dúvidas são muitas, as dificuldades também – logísticas, legais, jurídicas. O Nuno e o Pedro estão a abordá-las todas dentro das suas capacidades nestes dias que precedem a viagem. A viagem começa amanhã, 25 de Setembro de 2015.

Ao lerem esta história podem ter as mesmas dúvidas que eu – então e como tratam da papelada para trazer as pessoas? como seleccionam as pessoas que trazem consigo? como vão fazer quando lá chegarem? e isso é legal? e durante quanto tempo contam tê-las em sua casa? vão encontrar outra solução?

Provavelmente nem eles têm as respostas. Andam a procurá-las. Para isso criaram um grupo de facebook onde outras pessoas partilham o que podem – já li mensagens de quem trabalha com refugiados e os pode ajudar no regresso, com papelada, burocracias, etc. Médicos que disponibilizam os seus serviços. Amigos criaram uma conta de crowdfunding (financiamento colectivo) para ajudar nas despesas de portagens, possíveis avarias e outras eventualidades, e o que não for usado seguirá directamente para a referida PAR. Pessoas de ONG alertam-nos para as prováveis dificuldades que encontrarão, assumindo que a resposta oficial e institucional está a tardar e reconhecendo-lhes a coragem e determinação.

São loucos? Varridos. Mas têm uma loucura cheia de idealismo, alimentada pelo amor ao próximo, porque gostariam que, se fosse ao contrário, fizessem o mesmo por eles. São cidadãos que se vão chegar à frente (e a que frente, caramba!) para tentar ajudar o próximo, neste caso famílias sírias.

Fico emocionada a pensar no que vão fazer, sobretudo porque conheço o Nuno e a sua família. Porque tenho 3 meus e me ponho sobretudo no papel da *V*, que ficará com 4, com o coração na boca, a torcer para que tudo corra bem com o marido na sua aventura que começa amanhã. Porque o Nuno e o Pedro vão, também eles, correr riscos. E aquilo que podemos fazer como exercício abstracto vai ser a realidade destes dois amigos – aos quais se juntarão outros tantos.

É impressionante, não é? Esta onda de solidariedade está a tocar outros, mas o Nuno e o Pedro deixam a mensagem bem clara:

nuno msg

Desejo ao Nuno, ao Pedro e a todos os que se juntarem toda a sorte do mundo, vão precisar dela. Vou acompanhando o desenrolar da viagem através do grupo de facebook e, na medida das minhas possibilidades, ajudar como puder. Este artigo é uma delas.
hashtag

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