Educar para o ser, educar para o ter



Rob Gonsalves 1Este artigo veio-me à cabeça com uma sensação de urgência, depois de ter chegado à conclusão que, indo ao âmago da questão,

é a isto que se resume a diversidade de blogues e sites dedicados à maternidade: educar para o ser, educar para o ter.

(sendo que a 2ª versão tem muito mais sucesso)

Vem isto a propósito de dois artigos que partilhei recentemente na página de Facebook da Mãegazine. Um artigo, em português, fala de alguns blogues portugueses e como os mesmos se tornaram a principal fonte de rendimento das suas autoras, bloguistas que se tornaram profissionais. O artigo, do jornal Expresso, intitula-se Estas mães contam tudo na internet e está aqui.

O outro artigo, mais completo e abrangente, é francês e fala do regresso da mãe perfeita. Na óptica do Le Monde, há um regresso em força ao estereótipo da mãe perfeita. Longe do modelo dos anos 50, a mulher está agora emancipada, mais liberta do poder patriarcal, mas reina do topo da sua perfeição, que ilustra e promove através dos blogues e suas declinações: instagrams, facebooks, etc.

A internet e a maior parte desses sites vendem sonhos, nos quais projectamos os nossos desejos e frustrações de a nossa vida não se assemelhar ao que lá está: é natural, aquilo é encenado, como qualquer blogue o é.

Mais do que a divulgação da imagem dos filhos, o que realmente faz a diferença não são as imagens mas os valores que as mesmas querem fazer passar.

 

E que valores são esses? É o narcisismo, é a ideia de que valemos pela fama que alcançamos, pelos likes que conseguimos em determinada foto ou outfit, de que só existimos – só temos importância – se tivermos visibilidade, porque essa visibilidade se converte em dinheiro, que por sua vez nos confirma o nosso valor – monetário e aos olhos dos outros.

Sejamos honestos – não há um eu estou no 8 e tu estás no 80, eu só quero saber do ser e tu só queres saber do ter.

Se temos acesso a computadores ou outros gadgets digitais, se temos uma ligação internet fiável, é porque provavelmente vivemos no chamado primeiro mundo, com os seus confortos, complexidades e contradições. Primeiro mundo que, grosso modo, se baseia no consumo, que alimenta a máquina da produtividade e faz girar a economia.

Mas o que se tem observado é que este materialismo/consumismo elevado à infinita potência (que é basicamente o que está a acontecer), causa danos incalculáveis tanto do ponto de vista da sustentabilidade do planeta e dos seus recursos, como do ponto de vista humano. O consumo deixou de ser um meio para e tornou-se um objectivo em si mesmo. A mensagem é: somos o que consumimos e por isso temos de consumir muito para sermos alguma coisa.

A propósito de consumo, quem acompanha este site sabe que estabeleci uma parceria com a La Redoute Portugal. Não o fiz sem antes me ter informado e ficado a saber que é uma marca com história, é uma empresa francesa (não integra nenhum grupo multinacional) que procura defender o seu nicho no concorrido mundo das vendas online, depois da era do catálogo em papel. Têm artigos de qualidade, têm roupa e calçado para todos, têm mobiliário e artigos de decoração e iluminação, têm um design apelativo: sou cliente e estabeleci a parceria. E estou em paz com isso.

aqui escrevi e reitero – NADA tenho contra o consumo em si, mas penso, e defendo por estas bandas, que o consumo deve ser consciente, responsável e não deve ser um fim em si próprio – com o risco de chegarmos ao fim de uma vida e percebermos que a gastámos em inutilidades que comprámos na ilusão de que nos iam preencher interiormente. Nada mais falso.

Os artigos que aqui partilho, escritos por mim ou por outrem, são artigos que vão contra o espírito do consumo desenfreado. Pode até dizer-se que são artigos que vão em direcção ao espírito tout court. Esta postura parte da constatação de que o que realmente, realmente importa é a dimensão espiritual da vida: as relações que estabelecemos e a qualidade das mesmas. E essas coisas não se compram.

Quem tem filhos, no singular ou no plural, já se apercebeu que as crianças (e adolescentes então…) nos dão diariamente oportunidades únicas de crescimento espiritual. Educar filhos é como ter um curso intensíssimo de crescimento interno, pessoal. Perante os seus desafios diários podemos
1) reagir naturalmente (leia-se reagir à bruta, com reactividade emocional como expliquei aqui), ou podemos
2) tentar (tentar) reagir de forma empática, compreensiva, paciente, com compaixão.
Acredito que através da prática e de muuuuuuitas tentativas (falhadas, claro), a pouco e pouco conseguimos tornarmo-nos melhores do que éramos (pais, pelo menos), se a isso nos dispusermos, claro.

Isto não é nada, nada fácil. Não só porque costumamos reagir naturalmente (à bruta), como porque não temos consciência das nossas próprias atitudes (que são inconscientes, portanto) (dugh). Nesse aspecto a partilha de vida e de educação dos filhos em casal é bastante vantajosa – o outro aponta os nossos defeitos de educação em menos de nada…

Voltando ao início, nestas coisas da internet cada um procura o que lhe interessa. Aqui procura-se educar para o ser: ser em família, ser em sociedade, ser na intimidade, ser entre irmãos. E como este, outros tantos sites que vou divulgando aqui ou no Facebook.

Mas o ter não é importante? É, sem dúvida. Mas é-o tão somente na medida em que nos serve e não nos define.

É simples destrinçar o trigo do joio? É fácil fugir ao canto de sereia das fotos das férias, casas, outfits, corpos e relações perfeitas? Nem por isso… Mas é uma disciplina diária que, também ela, com a prática dá frutos 😉

Ilustração de Rob Gonsalves

melro

Este é o tipo de conteúdos que se publicam no Mãegazine. Se te identificas, podes seguir via mail seguir, Facebook ou Pinterest! Até já 🙂

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3 comentários sobre “Educar para o ser, educar para o ter

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