Consumo responsável e desperdício (quase) zero

Acabei agora mesmo de ver o filme documentário Before the flood, de Leonardo Di Caprio, e os factos são assustadores, o que se está a passar no planeta Terra, a nossa casa comum, devia fazer-nos reflectir e tomar posição.

O filme, aqui legendado em português, termina com uma nota de esperança que repousa na nossa própria postura, passiva ou proactiva. Interpela-nos a termos um consumo responsável, do nosso estilo de vida, do que comemos, do tipo de energia que consumimos.

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Deixando de parte as grandes medidas, provavelmente apenas (ou francamente mais) disponíveis para quem tem responsabilidades na matéria (políticas, científicas, industriais, etc), pensemos pequeno, na nossa escala pessoal, no nosso círculo de acção.

A Maria do Seis mais dois escreveu artigos sobre este mesmo assunto: o melhor que queremos deixar aos nossos filhos e sobre o tipo de escolhas que fazemos para as nossas casas/famílias, de que forma as mesmas reflectem os nossos ideiais de vida e, de um modo geral, os nossos valores. A sua postura é de redução de consumo de roupas, muitas vezes costurando ou tricotando o que vestem; cozinhar de raiz e fugir da comida processada; plantar e consumir o que têm no quintal; comer carne que sabe de onde vem, acompanhando o processo de crescimento e mesmo o abate do porco e por aí fora. A Maria é, claramente, a excepção numa capital europeia e é por isso, em parte, que o seu blogue tem tanto sucesso – as pessoas interessam-se por este estilo de vida alternativo mas realizável, possível, concreto e apelativo.
Há dias conheci, em carne e osso, uma outra pessoa que vive de forma diferente. Fui assistir à conferência da Béa Johnson, uma francesa radicada nos EUA que desde 2008 pratica uma vida desperdício quase zero.  Já há mais de um ano que sabia da existência do seu livro Zero Waste/Zero déchet, que aliás recomendei num artigo de sugestões literárias para o Natal. Fiquei contente de saber que o livro foi editado em português pela Presença (que envia para o Brasil) e já cá canta o meu exemplar, que entretanto já está autografado.

A Béa vivia o seu sonho americano até que a crise lhes bateu à porta e a família de 4 se viu obrigada a mudar de estilo de vida. Tomaram certas opções, entre as quais uma drástica redução do tamanho da casa, e viram-se forçados a fazer um downsizing. Deixaram 80% dos seus pertences num armazém e chegaram à conclusão que bem que podiam passar sem essas coisas. Entre tentativas e erros, chegaram a um ponto em que o lixo da família de 4 se resume a um frasquito de 1/2 litro de lixo (há muito que vai para reciclar, claro está, têm composto e devolvem o lixo electrónico e sapatilhas e afins).

A questão do lixo zero não é bem assim porque muito do lixo fica fora de casa. A título de exemplo, a autora pura e simplesmente recusa trazer os recibos de compra para casa, ou seja, o lixo existe e é produzido, mas vai para outro caixote que não o deles 😉
Mas mesmo que a sua filosofia nunca possa ser completamente posta em prática (pura e simplesmente não há desperdício zero na sociedade ocidental do século XXI em que vivemos) e deixe questões complexas como o lixo electrónico de parte (baseia tudo no digital, e então e os servidores das suas nuvens e afins?!), é uma mulher inspiradora.

Completamente obsessiva (desfaz-se de tudo incluindo as fotos de família – que digitalizou – e do anel de noivado – que vendeu em leilão), tem certas características que fazem dela o que a imprensa apelida de guru ou sacerdotisa do estilo de vida minimalista e sem desperdício: é coerente; é boa comunicadora e é bonita, elegante e cheia de estilo.

Ao vivo e nas reportagens aparece com roupa estilosa e saltos agulha, a casa é espectacular e tão limpa, depurada e luminosa que dá vontade de nos mudarmos para lá. Isto é especialmente importante para quem eventualmente ache que uma vida com (muuuuuuito) menos consumo é uma vida de troglodita, em que se anda com trapos rasgados e não se faz depilação nenhuma e se dorme num chão de terra batida e paredes de barro. Enfim, estou a exagerar, mas sem dúvida que a sofisticação dela e do seu modo de vida apelam que se fartam. Sugiro por isso que vejam uma reportagem:

Se tiverem curiosidade (e perceberem francês), aqui está outra reportagem e aqui está a apresentação completa (como a que assisti) em inglês.

Nada disto é novo, claro. A franco americana promove um estilo de vida sustentável como aquele que existia na província até há relativamente pouco tempo e nas cidades até, quê, década de 1950, 60? As grandes superfícies permitem grande distribuição e para se chegar a todos é preciso que as coisas estejam acondicionadas. Assim se explica boa parte do sobre empacotamento dos produtos alimentares (e não só). Se regressarmos (como eu faço com um cabaz do Prove) a uma lógica de proximidade, é fácil trazermos os produtos directamente dos produtores, com ovos sem carimbo e verduras da época e reduzir drasticamente as embalagens.

A sua abordagem no supermercado é gira – leva frascos de vidro e pede às pessoas que encham directamente o que pretende lá dentro. Cá por casa há muito que se usam caixas de vidro com tampa (na realidade são pirex que podem ir ao forno e a congelar para guardar comida), mas acho que vou subir a parada e procurar substituir os produtos por outros vendidos a granel, que vou tentar guardar em boiões de vidro como os dela alô! prendas de Natal 😉 .

A propósito, visitei a loja (cuja proprietária impulsionou a tradução do livro em português) – Maria Granel – e confesso ter ficado um pouco decepcionada. Não que não tenham resmas de artigos a granel e bem interessantes, têm, mas pretendem ter artigos exclusivamente biológicos (com algumas excepções muito raras, como chá Gorreana) (também achei curioso terem luvas de plástico descartáveis para tirar produtos, em vez de pinças como em certos supermercados).
Pessoalmente não tenho nada contra produtos biológicos, muito pelo contrário, mas esta escolha faz disparar os preços (a francesa compra a granel porque sai mais barato e não o contrário…) e exclui uma série de produtos de época e produzidos pela comunidade próxima (como sabão de limpeza a granel, por ex.) porque não preenchem este critério. A vendedora adiantou aliás que têm sido contactados por inúmeras pessoas com ideias de produtos a granel que não entram porque não são biológicos.
Na minha perspectiva é pena, porque há gente que anseia ter um outro modo de consumo e de distribuição e julgava ter encontrado ali esse ponto de venda, um espaço agregador. Afinal só agrega o que tem um selo. Fica a dica para outros comerciantes eventualmente interessados…

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Uma das coisas que a Béa Johnson disse ter mais importância é a nossa noção de que ir às compras é como votar. O consumo que fazemos, ou não, valida determinadas práticas. Quantos mais formos a recusar certos produtos, ou formas de empacotamento ou o que seja, mais fazemos com que as coisas mudem. Pomos o nosso dinheiro naquilo em que acreditamos.
A francesa descobriu que prefere gastar em experiências (prendas para os filhos adolescentes como bumgee jumping ou skydiving) do que em coisas, e possui um mínimo (mesmo) (mesmo). Comprar a granel fê-la fugir da comida processada e por isso ficaram globalmente mais saudáveis. Tem 15 peças de roupa que cabem numa mala de viagem (ela e todos lá por casa) e o aluguer da casa (naturalmente vazia, é mesmo incrível o desapego daquela família) paga-lhes as férias noutros locais. Desapego material e redução como filosofia de vida, à qual deu o nome de desperdício zero.

 

Não sei se há um antes e um depois deste encontro imediato do 3º grau com a guru da redução. Mas a sua perspectiva de vida cruzada com a visualização do documentário e a noção de urgência de mudança de postura de vida, em prol do bem comum, deram-me vontade de colocar em prática uma série de coisas, emparelhando melhor ideias e acção.

Por aqui vou registando essas experiências…

melro

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4 comentários sobre “Consumo responsável e desperdício (quase) zero

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