Vida simples

Regressei de férias e estou já em modo de preparação da rentrée, o início de um novo grande ciclo. Esperam-me dias de limpeza, triagem, arrumação, organização, ou, como se diz em inglês, extreme declutter. #Mainada

Entre as coisas que comecei a triar, encontrei uns artigos da minha mentora Tsh Oxenreider que imprimi. Datam de 2010 e falam da vida simples.

E fiquei a pensar que entre 2010 e hoje, 2017, muito mudou na blogosfera, ou pelo menos essa é a percepção que tenho…

O que a Tsh (aka ex Simple mom) escrevia era como que uma epifania para mim, com os seus conceitos de redução (downsizing), estabelecimento de prioridades e foco no essencial, declutter (destralhar), produtos caseiros (DIY), organização e gestão de tempo aplicados à família e à vida familiar. Finalmente encontrava uma voz na internet que ia direitinho ao que me ia na alma e no coração e destoava taaanto dos blogues pseudo dedicados à família, que na prática são publicidade (cada vez menos) encapotada.

Tinha uma só criança e almejava uma vida simples… que não é o que acontece quando aparecem outras duas no horizonte, sobretudo no que diz respeito aos sonos (se é que me faço entender).

Entretanto com o nascimento da 3ª criança comecei o projecto Mãegazine, depois de andar por aqui desde 2009, projecto que cruza a ideia de vida simples com vida familiar e os desafios de lidar/gerir/sobreviver a isto de se ter um quarto de dúzia (esta expressão dá mais impacto, não dá?) de crianças – pequenas – em casa.

Certo é que aquelas sementes de vida simples foram germinando e evoluindo e, sim, dando alguns frutos também.

Encontro-me agora numa fase em que posso – finalmente!!! iuhuuuu!!! – começar a pensar em implementar algumas ideias, de forma prática e concreta, na minha vida (posso?). Vou tentar aplicar noções de gestão de tempo – profissional e familiar, com a boa utilização de uma agenda e todo o potencial da mesma; de ritmos ou rotinas que já por aqui apregoei mas confesso ter sido um bocado baldas na aplicação 😏

Antes de discriminar que medidas são essas (o que na prática é uma lista de boas resoluções versão Setembro 2017, o “verdadeiro” início do ano), acrescento que o grau de consciência que tenho do impacto da nossa pegada no mundo é também muito maior, sobretudo depois de passar dias numa praia de bandeira azul, sem cafés, onde o lixo e os plásticos descartáveis pululam no areal, uma tristeza. O facto de ter estado à míngua de internet durante duas semanas também ajudou a ter uma visão bem mais límpida sobre a vida…

Eis os passos que conto dar no sentido de uma vida mais simples:

 

Começo por definir o que se considera uma “vida simples”. No seu livro, a Tsh dá a seguinte definição:

Living holistically with your life’s purpose | Viver holisticamente com o seu propósito de vida

Holisticamente é porque todas as partes do nosso ser estão alinhadas no mesmo sentido – espiritual, relacional, emocional, intelectual, física e mesmo financeiramente. Quanto ao propósito de vida, ela tem a convicção que se deve criar um mission statement familiar, ou pessoal, que basicamente é uma frase ou curto texto que reúne o que consideramos essencial para a nossa vida. Para isso é preciso descortinar as prioridades:

1. Gestão de tempo e organização – Zoom out
  • Estabelecer as prioridades da vida. Para isso conto fazer (terminar) o curso Paddle Upstream, que tem uma parte gira de testes de personalidade e o diabo a sete. Mas na realidade não é preciso curso online ou offline nenhum, basta uns bons momentos connosco mesmos e reflectir no que queremos para a nossa vida. Uma boa ideia é pensar no fim (sim, na nossa morte) e definir o que gostaríamos de ter feito, olhando hipoteticamente para trás.
  • Cruzar essas prioridades com aquilo que efectivamente fazemos e onde gastamos o nosso tempo. Num livro li que temos 3 dádivas diárias, que nos são dadas de novo cada manhã: 1. dádiva do tempo; 2. dádiva da energia pessoal; 3. dádiva da escolha. A vida é contabilizada em anos, que são feitos de meses, semanas, dias e horas. A conclusão óbvia é que onde gastamos o tempo é onde gastamos a nossa vida (queremos mesmo gastá-la a jogar candy crush ou a desfilar fotos no Instagram?).
  • Escrever listas de coisas importantes e que queremos mesmo fazer. No meu caso, uma delas é gastar tempo a selecionar fotos de 2016 e mandá-las imprimir num livro de fotos. Falta-me esse ano (e o de 2017 que ainda não terminou) e nesta época de fotos efémeras e tiradas por dá-cá-aquela-palha, ter um registo impresso não tem valor.
  • Escrever na agenda os prazos para a realização, chega de procrastinação! É preciso ser-se muito intencional para não nos perdermos nas palermices que nos sugam a energia e o tempo todo. É o chamado fazer acontecer

 

2. Reflexão e estabelecimento de objectivos (com base nas prioridades)

Saúde

  • Incluo aqui tudo o que toca à alimentação e ecologia de um modo lato (e abrange a cozinha, casa de banho e respectivos produtos). Exemplo: quero reduzir ao máximo (ou será mínimo?) o consumo de produtos embalados em plástico, o que acaba por excluir os produtos processados. Isso implica ainda mais tempo na cozinha, ser ainda mais criteriosa nas compras, levar os meus próprios sacos de pano (não, não os fiz, são estes e comprei-os em Lisboa, na Miosótis), etc etc. Dá trabalho mas todos saímos a ganhar no que toca à saúde, para além de ficar de bem com a minha consciência
  • Desporto e actividade física. Fazer desporto? Como e quando? Que tipo de actividade? Dentro de um espaço (como um ginásio ou piscina) ou ao ar livre? Qual o material necessário? É preciso investir em algo ou já temos o que precisamos? Como articular esse desejo com a nossa vida concreta? É possível usar janelas de tempo (como quando esperamos que a criança termine a sua actividade)?

Trabalho

  • Incluo o trabalho remunerado e não remunerado, como por exemplo blogues/contas em redes sociais, voluntariado, etc. O que pretendemos fazer e onde queremos chegar? Qual a motivação e qual o objectivo? Há algo que possamos fazer para ficarmos financeiramente mais folgados? Em quê e onde podíamos apostar o nosso tempo e energia (isto exige muitíssimo foco!)? Vale a pena esse investimento ou não? Ou mesmo que não se reverta em aumento de receitas, vale a pena o investimento de tempo na actividade X ou Y (motivação intrínseca) ou é um desperdício de tempo a evitar?

Relacionamentos

  • Casal, filho(s), família, amigos – qual a regularidade com que gostaríamos de estar com eles? Como tornar isso possível? Que tal marcar na agenda o dia para ligar/almoçar/visitar/escrever uma carta? Como fazer para combinar saídas e ter tempo disponível para estar com quem nos é mais querido? Experimentar fazer listas de pessoas que queremos ver e ir tentando encaixá-las na nossa agenda

Crescimento pessoal

  • Espiritual e intelectual. Fazer meditação? Rezar? Participar num retiro? Ler/ouvir textos que nos preenchem interiormente? Visitar museus? Assistir a concertos? Ler mais livros? Que livros? Tomar nota das actividades/livros/saídas que gostaríamos de realizar e distribuir (de forma realista) na agenda, pensando bem qual o espaço do dia em que pode efectivamente acontecer (ex. ler depois de ter filho a dormir, o que implica não torrar pestanas a navegar em redes sociais no telefone…)

Lazer e consumo privado

  • Onde queremos gastar o tempo livre? O que nos move e nos apaixona? Fazer coisas com as mãos? Costuras, tricot, cozinha, desenho, pintura, música? Ou ler e conhecer o trabalho criativo de outrem chega? O que fazer aos fins de semana ou nos tempos livres em família? Quais os locais que gostaríamos de visitar? Que actividades? Custam dinheiro ou são gratuitas? Até onde estamos dispostos a gastar? Podemos poupar na alimentação levando de casa ou nem por isso? Listar as actividades e locais que nos interessam e começar a planeá-las, com tempo e intencionalidade e determinação

Finanças

  • As despesas estão alinhadas com os nossos interesses? As poupanças são suficientes para se consumir com alguma folga ou nem por isso? Como poupar o suficiente para um mês/trimestre/ano de despesas? Os gastos passados têm sido bem direccionados ou houve desperdício? Qual o nosso ponto fraco de consumo? Livros? Roupas? Cosméticos? Tabaco? Ginásios que não frequentamos? Há alternativas (bibliotecas públicas; 2a mão ou redução para maior qualidade e durabilidade; DIY ou menos mas melhor depois de uma bela triagem; deixar de fumar; cancelar assinatura ou mexer obrigado rabo e sair da zona de conforto)? Vale a pena ter uma agenda em papel para despesas, um ficheiro Excel ou uma aplicação no telefone (só vale se tiver efectivo uso…)? Ou o agendamento automático de poupança através do banco e a atribuição de uma mesada para gastos pessoais chega para manter uma boa saúde financeira?

3. Organização de tempo e gestão de prioridades – Zoom in

Com uma visão mais clara das prioridades que temos para a nossa vida (1) e tendo estabelecido os objectivos gerais que queremos (2), resta-nos agora dividir a coisa por etapas e as diversas acções necessárias para chegarmos onde queremos. Escolher prazos (deadlines) e marcar tudo na agenda.

Pensar a 5 anos, 3 anos e 1 ano. Dentro do ano, tomar nota do processo.

Exemplo – perder 5 kg num ano, com desporto e alimentação mais saudável.
Desporto – Natação, 2x/semana: 1.Reunir todo o material desportivo (fato de banho em condições, toalha, óculos, touca, mochila, etc.); 2. procurar uma boa piscina perto de casa; 3. fazer a inscrição e escolher os horários que mais se adequam; 4. levantar o rabo e ir nadar 2x/semana.
Alimentação – evitar produtos processados; cortar hidratos de carbono a partir das 17h; não repetir a comida e reduzir um pouco as doses; privilegiar frutas e cortar o mais possível no açúcar; abusar dos legumes.
Esperar que o corpo faça o seu trabalho 😉

Penso que este é um bom ponto de partida. Acima de tudo, creio que o mais importante, nos loucos tempos que vivemos, é saber colocar as distracções de lado. Para termos uma visão clara do que queremos para a nossa vida é essencial fazer silêncio primeiro. Os dias sem wi-fi e sem 3G foram cruciais e é muuuito difícil de manter essa distância da net quando se regressa… mas os ensinamentos que se tiram são valiosos!

Boas resoluções, boas aprendizagens!

PS – os artigos ao quais me refiro são este, este e este, todos em torno de redefining simple living

PS2 – Mãegazine está também no Facebook e em várias pastas todas catitas no Pinterest

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Estilo francês tintim por tintim

Louca tem andado a vida e escasso o tempo e a disponibilidade. Pelo meio de todo este turbilhão, vou analisando e descobrindo redes sociais, cuja necessidade vou colocando em causa.

A propósito partilho uma conferência TED de um tipo que, sendo considerado millenial (nascido após 1982), está completamente fora de qualquer rede social e em 13 curtos minutos explica porquê. Está aqui a hiperligação.

Cada qual deve fazer um balanço dos pros e contras e perceber, afinal, para que serve *efectivamente* estar aqui ou ali…

Pelo que me diz respeito, continuo particularmente fã do Pinterest (e dizem as estatísticas que o mulherio dá cartas neste campo), pela utilidade que tem na minha vida.

É que há um antes e um depois do Pinterest, sim 😉 Continuar lendo Estilo francês tintim por tintim

Ficções (um artigo invejoso)

Ficções é o título de um dos meus livros favoritos, conjunto de contos do Jorge Luís Borges, mas isso não vem aqui para o caso.

Ficções foi o melhor título que eu encontrei para um artigo sobre a frustração que sentimos ao ver as redes sociais e a vida dos outros. Neste caso particular, a vida de uma cozinheira sino francesa mãe de 6 + 2 enteados + resmas e resmas de cães, a viver no sudoeste francês, na zona do Médoc (onde há um vinho bestial).

 

A sério. Se não a conhecem, não se dêem ao trabalho – ficam com vontade de cortar os pulsos. Não há nada que não seja perfeito: Continuar lendo Ficções (um artigo invejoso)

Das contradições (e das pequenas coisas)

Na página de Facebook da Mãegazine acabei de partilhar uma imagem de uma página intitulada Becoming Unbusy. A tirada é esta e diz que no fim da linha não nos lamentaremos do tempo a mais despendido com os filhos.

A primeira contradição é que se há quem fique contente de despachar filhos para avós sou eu e já estou a esfregar as mãos agora com a Páscoa (eheh). E depois fica-me muito bem partilhar uma imagem destas… Mas essa contradição é humana e até tem graça. E eu sou o perfeito peixe que mordeu o isco.

Como assim? Continuar lendo Das contradições (e das pequenas coisas)

Vamos #emãegrecer com cabeça?

É oficial – estou a precisar de perder 5kg. É uma mer chatice, mas é verdade.

E tenho uma pequena suspeita de que não estou sozinha.

Não sei como é com as outras pessoas, mas entre Setembro e agora, meio de Fevereiro, engordei 5kg. Entre as festas, o Natal e passagem de ano; alguns aniversários e respectivos bolos e tão somente seguir a minha natureza (enfardadeira), comi como gente crescida e sem medo do amanhã.

Pois o amanhã chegou agora numa consulta médica em que vi +6 do que devia. Dei de barato 2 extra, é da roupa, sabe que lá em casa marca dois abaixo, olhe que não, menina, olhe que não.
Isso e ver-me no espelho comunitário, quando fico desfasada da maralha toda na aula de zumba onde apareço uma vez por mês. Assim tive uma epifania, daquelas que não motivam nada, bem pelo contrário – estou a precisar de fechar bem as calças outra vez e de poder dobrar o joelho sem fazer garrote.

E agora a má notícia – as dietas são todas uma treta.

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Actualização e palavra do ano

Feliz ano de 2017!

anna-parini

O final do ano é como se prevê – agitado, numa correria, com antibióticos, algumas frustrações e outras quantas consolações, papo cheio e muitas horas de pijama em casa 😉

Não escrevi nada. Aliás, sobre o final do ano e o pensamento mágico de que uma nova contagem a partir do 1 de Janeiro faz milagres, já muito escrevi aqui. Gosto especialmente do artigo que explica como podemos fazer com que as boas intenções se realizem e não encham o Inferno… Continuar lendo Actualização e palavra do ano

As histórias fundadoras | Serge Bloch

Tenho uma grande fraqueza pela ilustração, talvez por nunca ter enveredado profissionalmente por essa área. Mas sigo o que se vai fazendo, nomeadamente através do Pinterest.

Em Lisboa há a Ilustrarte, exposição dedicada exclusivamente à ilustração actual. Foi na última edição, no Verão, que descobri estas histórias fundadoras ilustradas e animadas por Serge Bloch.

Para quem não conhece, Serge Bloch é um ilustrador francês que tem um estilo muito depurado e um aguçado sentido de humor. Brinca muitas vezes com objectos do quotidiano e podem facilmente descarregar uns stickers dele no Facebook, numa associação com a marca de roupa Petit Bateau.

serge-bloch-6serge-bloch-2 Continuar lendo As histórias fundadoras | Serge Bloch