Calar as vozes

O título deste artigo pode parecer um bocado estranho, mas é assim mesmo.

katie daisy norte

Um dos aspectos que distingue a nossa sociedade ocidental é, justamente, a liberdade de expressão, que como sabemos varia sempre de grau… De um modo genérico podemos dizer e escrever o que nos apetece e a internet, com as redes sociais e os espaços como este, veio permitir que qualquer um partilhasse a sua opinião, quer fosse, ou não, a isso chamado.

Esta possibilidade reverteu-se numa explosão incrível de conteúdos e diz-se que a cada ano ou dois anos, a humanidade cria tanta coisa como durante toda a sua história até hoje (Mesopotâmia, Grécia, Roma e por aí fora, dá para perceber a ideia).

Se isto é absolutamente fantástico e esmagador, é igualmente esmagador no sentido de nos perdermos: a referência deixou de ser o livro X ou Y, o jornal Z, fulano ou sicrano. Agora, se quisermos, todos nós podemos ser especialistas de tudo e de nada.

Claro que isto apenas é válido se houver quem nos acompanha, mas assim de repente, sem pensar muito, qualquer um de nós pode pensar numa mão cheia de pessoas bem intencionadas (ou nem por isso), que foram ganhando destaque em determinada área. Algumas têm efectiva formação (e boa formação) e mérito, outras são fraudes em maior ou menor grau, dependendo da sua influência e área de actuação.

Não me alongando, recorro de novo ao P. Tolentino, que num texto conciso e, para variar, incrivelmente certeiro, nos dá uma fantástica imagem: passámos da bússola para o GPS. O texto é este e aqui podemos ler:

“(…) na orientação das nossas viagens deixámos de recorrer à bússola e passamos a utilizar o radar. Isto significa o quê? Significa que não estamos mais ligados a uma direção precisa. É verdade que o radar vai em busca do seu alvo, mas essa busca implica agora uma abertura indiscriminada, plural, móvel. Com a bússola era-nos claramente apontado um Norte, e só uma direção: o radar vem potenciar e complexificar a procura. Diversificam-se os sinais e multiplicam-se igualmente os caminhos.”

E o texto continua, porque a coisa complexifica-se e muda de sentido:

“Hoje estamos perante uma ulterior mudança, porque mais do que investirmos na procura de sinais aqui e ali, garantimos agora sobretudo a possibilidade de recebê-los. Se antes o radar estava à procura de um sinal, hoje somos nós a procurar um canal de acesso através do qual os dados possam passar, sem no entanto termos nós necessariamente de fazer a procura.”

O autor diz depois que a grande crise é a de destrinçar o que nos está a ser dito, a falta de interpretação, como podem ler no final da curta crónica.

Mas para o que me interessa aqui e agora, isto já é suficiente.

katie daisy solidao

Ando a ler, entre outros (quando posso e consigo), um livro bem interessante, intitulado Simplicity Parenting. A minha mentora Tsh cita-o várias vezes, nomeadamente para simplificarmos o mundo das crianças. Neste livro, o autor fala de 4 pilares que estão abalados pelo excesso: demasiada informação, demasiadas coisas, demasiadas escolhas e um ritmo de vida demasiadamente rápido e acelerado.

Diz ele que encontra aqui, no chamado primeiro mundo, as mesmas características comportamentais que em cenários complexos de refugiados e crianças sujeitas a stresses vários. Esses traços de comportamento não são então desencadeados pelo stress pós traumático (de guerra, exílio, etc), mas sim por causa do stress cumulativo. Um bocadinho aqui, outro bocadinho ali, e a criançada vai enchendo o seu copo com stress, o stress dos adultos.

 

No que diz respeito a educar filhos, o princípio de simplificar vem mesmo, mesmo a calhar. Aqui sim, defendo a versão calar as vozes. Calar o ruído, a profusão, o caos. Esse calar de vozes não tem de ser feito de forma prepotente e autoritária, não é chegar ali e dizer cala-te (ainda que nalguns casos isso possa ser necessário, mas com gentileza e firmeza). Estou a pensar sobretudo na internet: calar as vozes que não nos interessam. Desactivar notificações, cancelar subscrições, deixar de visitar certas paragens. E, caso seja necessário, calar a TV ou o rádio sempre que sentirmos que isso vai embotar-nos os sentidos e dessensibilizar-nos. É isto uma apologia da avestruz e do colocar a cabeça na areia? Não, é crucial estar atento à actualidade – penso ser importante, dentro da nossa área, darmos a nossa contribuição para um mundo melhor, mais justo e equilibrado. Mas em certa medida é também um sim – é impossível ouvirmos a nossa voz interior (ainda lá estará, com tanto ruído externo?) se nos sentimos esmagados pelo que os media, a sociedade, os outros nos dizem constantemente, ininterruptamente, com flashes e luzes brilhantes a piscar – olha para aqui, vê isto, ouve aquilo, faz desta forma ou daquela.

Este texto defende, sob outra forma, a importância dos mentores, das vozes que nós escolhemos e distinguimos por entre as demais. É uma defesa da simplificação, externa e interna. É uma defesa da frugalidade, porque pouco e bom é incomparavelmente melhor que muito e fraco. É uma defesa de um alinhamento prévio de prioridades, para que as nossas decisões diárias, pequenas e grandes, reflictam o que queremos para nós, para a nossa vida, e não aquela que os media, os blogues, as revistas, as publicidades (com uma agenda de consumo por trás…) nos impingem.

katie daisy

Os filhos carregam nos botões todos difíceis e expõem as nossas fragilidades, se estivermos atentos e nos dermos ao trabalho para isso – repensamos a nossa própria infância e adolescência; a nossa relação de e com a autoridade, a nossa relação de casal, as nossas idiossincrasias. É tão fácil, é demasiado fácil deixarmo-nos levar pela corrente dos acontecimentos e da cultura em que estamos imersos, sem criarmos, protegermos e acalentarmos a nossa própria cultura familiar. Admiro infinitamente quem o faz (e não sou a única) e o explica tão bem aqui, mas para isso ser possível, é preciso primeiro aprendermos a, sem culpas, calarmos certas vozes, para ouvir outras – em última análise as que interessam – mais claramente.

Só assim, simplificando e reduzindo ao mínimo o ruído externo e interno, deixaremos de nos sentir desnorteados, encontraremos o nosso norte e criaremos a nossa própria cultura familiar, as nossas própria tradições, os nossos códigos íntimos e familiares, à nossa imagem e semelhança, carregada das nossas idiossincrasias – é inevitável (e desejável!) – sem ser por comparação ou porque a “sociedade” assim o exige.

O autor do livro sugere a simplificação dos tais pilares: coisas materiais; oferta de escolhas; desaceleração do nosso ritmo de vida e… redução da informação. Calar as vozes aplica-se, sobretudo, a este 4º.

Ilustrações todas da inspiradora Katie Daisy

melro


Aqui no Mãegazine aborda-se esta simplificação da vida, sobretudo a caótica vida de quem tem filhos. Da reflexão a sugestões práticas, há muito para acompanhar! Como os artigos são irregulares, sugiro a subscrição por mail, Facebook ou Pinterest. Até já!

 

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