Quando nos questionamos sobre o plano B da vida

Há dias vi esta imagem que aqui reproduzo, da autoria do ilustrador catalão Jordi Labanda. Fiquei a pensar nela e associei-a a um belíssimo texto, outonal, do José Tolentino Mendonça, que tem uma rara capacidade para escrever sobre a alma humana.
A certa altura escreve ele:

(…) Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. (…) Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu. Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tetos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. (…) Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. (…)

Touché. Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu isto mesmo, que a sua vida é um plano B. Não forçosamente a vida toda, nem todos os seus aspectos, mas algumas áreas ficaram aquém do esperado: o trabalho que temos não tem nada que ver com o que estudámos e não nos preenche, ou estamos actualmente sem trabalho; fomos forçados a sair do país em busca de um melhor futuro; a saúde dos nossos pais não nos permite fazer grandes voos, ou não estávamos a contar com esta chatice na nossa própria saúde; passamos horas no trânsito, algo que não considerámos quando comprámos uma casa, ou a casa tem imensas fissuras a surgir na parede, já para não falar da humidade daquela divisão; etc por aí fora.

Na vida familiar as coisas não são mais simples – dificuldade em atinar na “pessoa certa”; esperar que ambos estejam no mesmo comprimento de onda para ter filhos; dificuldade ou impossibilidade em conceber; desenrolar da gravidez, nem sempre fácil; separações e famílias recompostas (ou nem por isso). É só enumerar…

De onde vem o plano B, ou melhor, o utópico plano A?
Diria que da adolescência, início da idade adulta. Estamos cheios de força, ideias, ideais, sonhos, projectos e achamos, ingenuamente, que as coisas estão nas nossas mãos, que se os outros “falharam” foi porque não lutaram o suficiente, afincadamente. Connosco vai ser diferente…
E não ponderamos, porque não sabemos (ou não queremos ver), as condicionantes, as crises económicas, a rota das pessoas que passam pela nossa vida. E assim encontramo-nos todos, a certa altura, em maior ou menor grau, a braços com uma vida no plano B.

O que escreve Tolentino sobre o que fazer com este plano B? Que temos 3 saídas.

A 1ª é quando desistimos “simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso.”

Na 2ª, mais desencantada, “podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo.”

Por último, podemos usar esta experiência como “um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a “transfiguração” da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.”

Ui.
Essa agora é que é.
E é tramada. E exige muito de nós.
Assim numa perspectiva menos poética e mais terra-a-terra, diria que podemos começar por mudar as nossas próprias expectativas, baixando-as. Atenção, não digo baixar os braços e deixar de lutar por um trabalho e remuneração dignos, ou aceitar qualquer situação pouco saudável só para não ficarmos sozinhos! Nada disso! Um certo grau de insatisfação não é apenas necessário mas essencial para fazermos as coisas avançar.

Falo aqui numa mudança de perspectiva, focalizarmo-nos mais no que temos do que no que não temos. Aprendermos a desejar a vida que temos, seja ela o Plano A, B, C…

Assumirmos que a vida é rugosa, que passar boa parte do dia a trabalhar de mau grado não ajuda a passar o tempo mais depressa; que as boas relações afectivas dão muito trabalho; que temos de gerir as cedências que estamos, ou não, dispostos a fazer; que o orgulho e arrogância não nos levam longe, porque como canta o João Gilberto, “eu lhe asseguro, pode crer / que quando fala o coração / as vezes é melhor perder / do que ganhar, você vai ver”.

O paciente e esperançoso trabalho interior passa muito por aqui, penso eu de que 😉

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3 comentários sobre “Quando nos questionamos sobre o plano B da vida

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