Halloween vs Pão-por-Deus

O título do artigo é falacioso e longe de mim criar uma guerra entre duas facções – sobretudo porque sou a última pessoa a poder fazê-lo. Ao contrário de muitos amigos, tenho zero tradição de Pão-por-Deus. Sou urbana, dos urbanos que cresceram em bairros periféricos sem vida de bairro. Mas como sou verdadeiramente lisboeta, não tenho terra para onde ir.

Esclarecida esta questão, acrescento que sou acérrima defensora de tradições e celebrações. As tradições criam memórias, estreitam laços afectivos, criam situações que se podem perpetuar numa mesma família, anos mais tarde. Como escrevi aqui, o dia-a-dia não cria memórias marcantes – é o pano de fundo. O que cria essas memórias é a adrenalina associada a coisas que quebram o rame rame diário.

As tradições e celebrações podem ser inter/nacionais, regionais ou familiares/pessoais. Os 365 dias do ano não são todos iguais e os feriados e festividades assinalam camadas e camadas de história e evolução da sociedade.

Como podemos ler neste bem interessante artigo dos Índios e Cowboys, cuja leitura recomendo vivamente, o Halloween tem uma origem mais ancestral do que a história da cristandade.
À semelhança do que aconteceu com várias outras celebrações pagãs, o mundo cristão apropriou-se destas festas e deu-lhes um cariz religioso. Exemplos? Santos populares por altura do solstício do Verão; Natal por altura do solstício do Inverno; Quaresma/jejum na época do ano porventura mais pobre em termos agrícolas.
A Páscoa é a data religiosa que mais se aproxima do facto histórico da crucificação de um homem chamado Jesus – é o 1º domingo depois da lua cheia, depois do equinócio da Primavera.

Não é por isso de estranhar que se tenha dado uma outra roupagem ao Halloween celta. A coisa evoluiu e, na versão nós por cá, temos o Pão-por-Deus em terras lusas/lusófonas. Uma pequena pesquisa revela que o mesmo pão tem vários nomes e vários dizeres associados, alguns bem criativos!

Como expliquei no início, não tenho qualquer memória associada ao Pão-por-Deus, tampouco ao Halloween (esse talvez um pouco mais, já que a minha mãe me fez um giríssimos óculos de morcego quando tinha 11 anos. Há um quarto de século, portanto).

Tendo agora a minha própria família, coloco-me frequentemente a questão – que tradições quero acalentar? Uma ida aos Santos Populares, já que vivo em Lisboa, é uma delas.

Ando a congeminar uma outra em torno do período de Advento, uma ideia giríssima que, não sendo original, quero trazer para português, e para minha casa em particular. Fiquem atentos que aqui falarei disso em breve!* 🙂

Em relação ao Halloween e ao facto da miudagem andar mascarada sem ser no Carnaval, não tenho nada contra. Até acho piada, sobretudo porque é divertido para eles. O que não acho nada piada é ao aspecto comercial e ao esvaziamento do mesmo.

A sociedade de hiperconsumo em que vivemos apropria-se de tudo quanto é tradição internacional (ocidental) para arranjar mais uma desculpa para vender algo. Mesmo que sejam uns esqueletos horrendos de plástico a uma tuta e meia, feitos (para variar) na China e que nos vão encher a casa de (mais) lixo. E isto para quê? Para celebrar uma festa já francamente desvirtuada e meramente reduzida a uma estética: abóboras, esqueletos, bruxas, fantasmas.

Esta tradição do hemisfério norte, onde os dias diminuem a olhos vistos e anoitece muito cedo, provavelmente ajudaria a fazer a catarse dos nossos medos ancestrais.
O final do mês de Outubro e início de Novembro é rico em tradições deste género pelo mundo fora, também no hemisfério sul, basta pensar no Dia de los Muertos e a grande festa mexicana e sul-americana em torno da morte – lá está, cruzando o mundo cristão e pagão.

Mas em vez de pensarmos no que está subjacente – honrar a memória dos que fomos perdendo – compramos sem pensar um monte de tralha em prol de uma festa das bruxas para as criancinhas. Se é isso, não quero, obrigada.

A bloguista do Quadripolaridades lançou o repto no seu facebook, criando o #movimentopãopordeus. Aderi por piada, não que queira impingir pães ou deuses a ninguém… 😛

Cada um escolhe as tradições e celebrações que quer, mas penso que era bom reflectir um pouco antes de saltarmos para a primeira moda norte americana que nos salta à vista e à carteira. E pensar se com isto não estamos (literalmente) a comprar (restos de) tradições alheias, enquanto as nossas se vão perdendo, diluídas num mundo cada vez mais globalizado e de pensamento único.

O saco maravilhoso é da Dana Willard e podes ver como se faz clicando aqui ou na imagem


No Mãegazine fala-se de tradições familiares e de outras coisas.*Podes conhecer a nova tradição para o Advento seguindo por mail, Facebook ou Pinterest!

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2 comentários sobre “Halloween vs Pão-por-Deus

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