Vamos falar sobre o ‘burn out’ materno?

Esclareço antecipadamente que não sou, de todo, especialista em saúde mental. Mas estou a especializar-me em ler os meus próprios sinais. Por outras palavras, não sou informática nem programadora, mas tenho a atenta óptica do utilizador.

wacky races

Ando agora a ler um livro que acabei por comprar numa promoção – The Fringe Hours. Francamente não estou a achar nada de especial, mas curiosamente a autora aborda exactamente a mesma temática que já aqui tinha esboçado neste artigo: o equilíbrio nas nossas caóticas vidas.

Diz a autora, Jessica Turner, que o equilíbrio é (e cito em inglês) a satisfying arrangement of elements + emotional stability = balance. E depois parte para a questão da estabilidade emocional, como não fazemos do tempo para nós uma prioridade e por aí fora. Concordo e subscrevo em absoluto… com a pequena nuance de que a estabilidade emocional não é coisa para se tratar assim de forma ligeira. É para ter mesmo cuidado com esta questão.

Vamos ver as coisas através de uma metáfora:

Educar um filho é uma corrida de fundo. Dura em média uns vinte e poucos anos, para sermos realistas. Uns 18 lá para os Estates. Podemos ter equipamento de melhor ou pior qualidade. Eu quero, claro está, estar equipada com o melhor que posso. Entre psicologia positiva ou mero bom senso, entre estratégias testadas por mim ou por outros, entre empatia, compaixão e amor incondicional, aqui vou deixando registados alguns desses equipamentos interiores. Mas de nada serve se arrancamos com a sapatilha XPTO e a roupa ultra performante se partimos com uma ou várias lesões físicas. É que consta que a maratona da educação de um filho começa de forma atribulada, acalma lá para os 7 a 12 anos e depois regressa ao terreno muito acidentado, para desembocar numa estrada em aberto. E quais são essas lesões?
Para este artigo em particular a pior das lesões é o stress.

 

Ou vamos usar outra imagem, porventura mais completa:

Cada um tem a sua própria camioneta, com um motor com uma determinada capacidade, cavalos e cilindrada. E nessa camioneta são colocadas diversas cargas. E há ainda a qualidade da estrada que se percorre, mais ou menos acidentada, com melhor ou pior asfalto. E isso tudo faz o que nós somos.

Se tivermos uma camioneta com relativamente pouca capacidade, mas carga qb e andarmos numa estrada com bom asfalto, a coisa corre bem. Ou podemos ter uma carga pesadona e um terreno acidentado, mas um bulldozer de motor e vamos andando com relativo à vontade. Ou podemos ter quase tudo a correr mal ao mesmo tempo – um motor a falhar, uma carga gigantesca e um horror de estrada. E acidente quase certo.

O burn out é quando o motor gripa e não pega mais. Ou os pneus furam, ou fica atolado num qualquer terreno. E a camioneta afunda-se, com a sensação de carga insuportável. Trocando por miúdos, perdemos a capacidade de sentir empatia, perdemos a paciência por dá cá aquela palha, ficamos insensíveis aos choros e genuínos apelos dos nossos filhos, soltamos o animal facilmente. Tristeza, fadiga, ansiedade, irritabilidade, falta de esperança, bloqueio emocional na resposta amável aos outros. É um inferno pouco recomendável.

 

A carga é a pressão externa, laboral; horários pouco flexíveis e bem longos; o tempo gasto no percurso para o trabalho; o stress do trânsito ou dos transportes públicos, sempre a correr que o tempo é implacável. Há ainda a acrobática gestão financeira em tempos de crise; a falta de apoio familiar e de rede de suporte, seja para limpar/cozinhar, seja para tomar conta das crianças; os deveres escolares e a inevitável tensão que acarreta; as noites mal dormidas, muitas vezes durante anos a fio. É ainda o feitio da prole – e há crianças mais fáceis que outras – o negativismo, a recusa constante em fazerem o que pedimos, os gritos (deles), o fazerem-nos frente e testarem os nossos limites. Às vezes é também aguentar tudo a sós, sem o pai/marido/companheiro ao lado.

O percurso pode ser mais acidentado, com doenças e mortes; cortes salariais e desemprego; contratos não renovados ou contas exorbitantes e não previstas para pagar; carros que avariam ou electrodomésticos essenciais que dão o berro; discussões e tensões conjugais que por vezes desembocam em separações e passam para o lado de mais uma carga a carregar, o da maternidade (ou paternidade) a sós.

E o estado da nossa camioneta? Por muito resistente que seja (quanto mais resistente for melhor vivemos tudo isto!), ninguém resiste a tudo. Equipar a camioneta é bom, GPS, travões, bons pneus e por aí fora (vem-me à cabeça a imagem de uma camioneta tunning, ahahahah), mas não dá para modificar o fundo.

E (n)o fundo, a camioneta só anda quando está bem, correndo o risco de rebentar para sempre (assustei-me no dia em que ouvi uma emissão rádio com um testemunho de um bombeiro que perdeu a memória para sempre porque… teve um burn out que queimou o seu disco rígido de vez. Brrrr).

 

O burn out, ou esgotamento (apesar de ser defensora da língua portuguesa sempre que posso, gosto mais da imagem mental de burn out, tem mais impacto algo a arder do que a esgotar-se…), está associado ao trabalho. Mas os franceses, que gostam destas coisas, têm uma série de artigos sobre o burn out materno, aparentemente na sequência de um livro-sensação. As mães, com vidas profissionais activas, casas para gerir, filhos para cuidar, poucas ajudas/partilhas de trabalho, estão mesmo a jeito para sofrer com esta condição.

E o que se diz sobre o burn out materno? Diz-se que vem na sequência de um grande desgaste que dura muito tempo e que tem 3 fases:

  1. Esgotamento físico, emocional e psicológico – cansaço extremo e clara diminuição de capacidade de reacção; grande irritabilidade e saltos de humor
  2. Distanciação emocional – perde-se a capacidade de se sentir empatia e compaixão, pois como forma de auto preservação há um distanciamento emocional que se cria entre a pessoa/mãe e a realidade/filhos/pessoas
  3. Negação e indiferença – desvalorização das coisas que se faz; perda do brio e orgulho pelas pequenas vitórias; tristeza, cinismo; intolerância; cólera

 

As mulheres (há excepções e conheço algumas, mas as mulheres, regra geral, ultrapassam o número em grande escala) esticam a sua corda a limites pouco recomendáveis. Têm a tendência de carregar com carga muitíssimo acima (não apenas um pouco mais) da real capacidade da sua camioneta.

A pressão que vivemos é inacreditável!

A experiência humana é pessoal e intransmissível e por isso comparar situações é, à partida, inglório. Mas a comparação pode também dar-nos uma perspectiva de fora, de como afinal não estamos assim tão mal quanto isso, o que aguça a sensação de gratidão pela vida que temos. De certa forma ajuda a aliviar a carga ver que outros têm uma bem maior, mas não há milagres.

Quais as estratégias que podem ajudar a prevenir o burn out?

Colocarmos limites e cuidarmos de nós para estarmos em condições de cuidar dos outros:
Andar a pé, na natureza; fazer desporto; comer melhor; evitar vícios; delegar; ter empregada doméstica; ter quem tome conta da prole sempre que necessário; ter tempo de introspecção; fazer coisas que nos dão prazer e deixam felizes e dormir, dormir, dormir, dormir tudo o que precisamos.
E reduzir, reduzir, reduzir: as expectativas que temos, a exigência que fazemos a nós próprios, as responsabilidades. Apostar nas relações que nos preenchem e alimentam (vs as relações tóxicas).

Como fazer isto? É muito mais fácil de dizer do que fazer e é tãããããão fácil ver nos outros! Temos de parar um pouco para pensar nesta equação com três variáveis – a camioneta, a carga e a estrada, que mais não são do que o nosso estado emocional e físico, as nossas responsabilidades e os imponderáveis da vida. Ver onde podemos aliviar a carga, que caminho podemos percorrer ou como contornar determinados obstáculos e como equipar bem a camioneta.

E o que fazer se já estamos em pleno burn out ou a resvalar para um?

Pedir ajuda, pedir ajuda, pedir ajuda. Falar com o médico de família, com um psicólogo, psiquiatra. Falar com alguém de muita confiança – desabafar ajuda muitíssimo a aliviar a carga! Solicitar ajuda para as tarefas incontornáveis, dizer não a tudo o que não é verdadeiramente importante e prioritário.

 

Só podemos dar o nosso melhor se estivermos bem. De nada serve o equipamento XPTO, lermos sobre empatia ou como gerir com as birras da criançada se não estivermos emocional e fisicamente bem de saúde. E esse é o verdadeiro mãedamento nº1 – cuida MESMO de ti em primeiro lugar, o resto virá por acréscimo.

ilustração de Iwao Takamoto para os desenhos animados Wacky Races (Hanna Barbera)

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Aqui no Mãegazine não se gasta tempo com artigos inúteis: procura-se antes reunir o melhor equipamento que por aí anda para a tal corrida de fundo que é educar a prole. Não se garantem resultados olímpicos, mas sim treinos e esforços diários. Às vezes também há muita vontade de atirar a toalha ao chão, mas não por muito tempo 😉
Podem seguir por mail, Facebook ou Pinterest! Até já

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3 comentários sobre “Vamos falar sobre o ‘burn out’ materno?

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